Dieta e dieta paleolítica

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Error veritate simplicior. Nietzsche

Mesmo um expert nos Kama Sutra não experimenta tão variado prazer do que o proporcionado pela diversidade de nossa omnívora alimentação. Mudar hábitos ligados ao prazer é muito difícil, talvez tanto quanto mudar de religião. É preciso muita força de vontade e disciplina na realização de uma mudança desse tipo. A motivação principal de uma dieta tem sido a perda de peso e seu resultado estético conforme com o que é valorizado pela cultura predominante. O termo dieta tem vários significados como pode se ver em uma de suas definições:

Dieta refere-se aos hábitos alimentares individuais. Cada pessoa tem uma dieta específica (saudável ou não). Cada cultura costuma caracterizar-se por dietas particulares. Contudo, popularmente, o emprego da palavra “dieta” está associado a uma forma de conter o peso e/ou manter a saúde em boas condições.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dieta

Mas a falta de compreensão de que uma intervenção para mudar a forma de se alimentar deve visar também outros beneficios para a saúde, e que isto só permanece pela manutenção perene do novo modo de cuidar da saúde, é grande fonte de fracassos.

Encarar uma dieta como um casaco que se coloca quando faz frio e que é abandonado quanto o tempo esquenta é um equívoco comum. Este equívoco tem base na teoria do balanço calórico. Este é um típico caso da falácia da teoria correta aplicada num contexto errado. Ou melhor, uma teoria que dá conta de explicar parte do processo mas não as suas causas. A argumentação em torno da lei da termodinâmica da conservação da energia diz que o que você ingere, reduzido apenas ao valor calórico, menos o que você gasta em calorias é o que você armazena, boa parte em forma de gordura.

Ninguém pode negar a lei da termodinâmica. Ela continua verdadeira ao estabelecer o quanto você engorda em função do que come e do que gasta. Mas imagine usar a lei da conservação da energia para explicar porque um carro se move e para onde. Outros fatores precisam ser levados em conta. O combustível e a conversão do mesmo, através da combustão, em energia mecânica bem como a vontade do motorista ao volante, entre outras coisas, determinam a trajetória e a velocidade. Da mesma forma a sua dieta para perder peso não tem sucesso se você levar em conta apenas a lei termodinâmica. Manter uma má nutrição e apenas mexer nos termos da equação termodinâmica simplesmente não dá certo a não ser temporariamente. O corpo se ressente do desequilíbrio e, como a “grande razão”que é, trata de corrigir a situação. Comer menos da mesma comida de sempre, contando calorias, só aumenta nossa fome e dispara nosso poderoso instinto de sobrevivência inscrito petreamente no nosso sistema hormonal. Na fronteira podemos até ultrapassar os limites éticos para obter “a nossa comida”. Exercitar-se compensatoriamente tem o mesmo efeito regulado pelos hormônios em busca da homeostase. Só faz incitar a nossa fome “quase assassina”.

Eu sou todo corpo e nada além disso; a alma é somente uma palavra para alguma  coisa do corpo; o corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é, também, a tua pequena razão, meu irmão, à qual chamas ‘espírito’, pequeno instrumento e brinquedo da tua grande razão (NIETZSCHE, [1992], p. 51).

A solução para o dilema “homeostásico” é sair dele adotando uma dieta que corretamente use os hormônios como aliados e não como inimigos. O mecanismo de armazenamento de gordura no corpo é controlado pelo metabolismo da insulina. Os níveis de insulina são influenciados de forma aguda pelos níveis de glicose no sangue. O picos de glicose ocorrem logo após a ingestão de carboidratos e de açúcares. A ingestão de gorduras não causa os mesmos picos que acabam levando à resistência à insulina e à fadiga das células beta com o consequente estabelecimento do diabetes. A famosa síndrome metabólica. Peter Attia revela seu desprezo no passado  por uma paciente obesa que precisava amputar a perna. O mesmo desprezo que somos compelidos a ter para com os obesos em geral ao atribuirmos aos mesmos uma falha de caráter que não permite que os mesmos comam menos e se exercitem mais. Uma “moralina”contamina nosso juízo de leigos bem como de muitos médicos também. Não vemos que a razão de tudo isso vem da comida, do que comemos, da pirâmide alimentar completamente anti-natural impingida a nós. A dieta paleolítica pode não ser a única resposta a este quadro mas contém um número razóavel de fatos baseados na bio-química dos humanos e na sua história evolucionária que justificam o seu sucesso em não só atingir metas de redução de peso como melhora de alguns marcadores de doença e, mais importante ainda, desvelar uma sensação de bem estar duradoura que anuncia uma saúde nunca antes obtida ao se manter a dieta padrão recomendada. Quando alguém seguindo a dieta padrão relata problemas gastro-intestinais, obesidade, câncer, diabetes e outras mazelas ninguém pensa nos nutrientes adotados como possíveis causadores dos problemas. Indisciplina, esbórnia, genética e outros fatores são invocados ocultando talvez a verdadeira causa e fazendo nos esquecer do significado profundo do ditado “você é o que come”.

Para agravar todo o nosso descontrole descobrimos também que estamos sendo manipulados. Por quem? Pelas plantas. Pelo menos pelas plantas que nós elegemos como principal alimento. As plantas anuais. Algumas delas, principalmente as que cultivamos em larga escala, altamente dependente dos não sustentáveis combustíveis fósseis. O quadro é tão dantesco que podemos pensar que em vez de cultivá-las é a nós que elas cultivam. O nosso conceito de civilização como sinônimo de nossa cultura é uma criação inconsciente das plantas que co-evoluíram conosco para garantir o seu sucesso como espécie e induzindo-nos a pensar que é do nosso sucesso que se trata. Apesar de toda a “viagem” que uma hipótese destas possa aparentar não é totalmente incomum na natureza a manipulação da vontade de um ser vivo por um parasita. O causador da toxoplasmose, entre outros, faz algo parecido mas nenhum deles o faz numa escala planetária como o fazem as plantas anuais. Além das plantas anuais não fazerem parte da alimentação dos homens no paleolítico a co-evolução em curso ruma para a nossa extinção como espécie saudável e plena de vigor vital. Uma nova raça doente e longeva por artifícios tecnológicos, os mesmos que garantem a proliferação das plantas anuais, nossas parasitárias consortes, que morre na velhice repleta de doenças degenerativas mas depois de se reproduzir, caminha para a extinção de uma forma sofisticada que passa pela extinção precedente das principais formas de vida que poderiam garantir a sua permanência. Devasta um planeta inteiro em favor de suas eleita, as principais plantas anuais representadas pelos grãos de trigo, milho e soja, só para exemplificar. Domesticadas (ou domesticadoras?) encontraram um parceiro para a sua disseminação configurando um caso de sucesso evolutivo mas sem abrir mão de suas defesas ancestrais para evitar a herbivoria pelos animais através de todo o seu arsenal bio-químico que causam nossas doenças mais insuspeitas. Uma inteligência inconsciente ainda nos “premia” com a oportunidade de nos reproduzirmos já que as doenças degenerativas só nos atingem na velhice pelo efeito cumulativo da ingestão prolongada dos grãos. Os efeitos mais agudos dos seus “venenos” foram atenuados pela domesticação mas ainda podem ser testemunhados nas variedades selvagens ancestrais. Passamos cerca de 2,5 milhões de anos na dieta paleolítica. Nossos corpos ainda guardam no sistema hormonal o resultado evolutivo desta experiência. A dieta neolítica baseada na agricultura do cultivo de grãos tem cerca de 10.000 anos. Muito pouco ainda, dirão os incautos, para condenarmos o seu uso pois vamos nos adaptar aos grãos e um dia eles, nossa “benção” contra a fome, não nos causarão tanto mal. Incautos são pela ignorância em relação aos mecanismos da evolução onde a seleção só atua durante a fase reprodutiva dos elementos da espécie. Nossos filhos continuarão recebendo nosso genes intolerantes ao grãos e continuarão adoecendo na velhice porque a natureza, representada pelas leis de Darwin, não se importa com a fase da velhice, só com o período reprodutivo que é quando se decide que só os mais vigorosos conseguem se reproduzir mais porque vencem a competição sexual pelas fêmeas e porque estão vivos na fase reprodutiva.

Outro equívoco muito comum ao se rebater a dieta paleolítica é pensar o homem como herbívoro. Muitos reagem dizendo que não somos carnívoros. Argumentam com nosso intestino mais longo que os dos carnívoros e com nossos dentes molares. Esquecem-se que estamos no meio. Somos omnívoros. Nem carnívoros e nem herbívoros. Nosso intestino também não é longo como o dos herbívoros. Nem temos o aparato dos estômagos enormes e com várias câmeras repletos de bactérias para digerir celulose e as partes mais difíceis das plantas. Em última instância podemos dizer que nem os herbívoros digerem as plantas com seu conteúdo importante de celulose mas que as bactérias o fazem e os herbívoros comem uma sopa de bactérias. Nossos dentes também tem algumas semelhanças com os dos carnívoros com caninos para agarrar a presa e incisivos para cortar a sua carne. Também quando regurgitamos estamos mal e tentando expulsar a comida e não processá-la como alguns herbívoros. Nosso ácido estomacal é forte e mais parecido com os dos carnívoros. Visa digerir a carne (que as vezes nem mastigamos tanto) e matar as bactérias virulentas no estômago. Nos não acolhemos as bactérias para nos ajudar na digestão tanto que foi surpreendente encontrar uma que sobrevivesse no estômago e causasse a úlcera. O ditado de suposta autoria de Mahatma Ghandi que encontramos em restaurantes naturistas diz “mastigar os líquidos e beber os sólidos”. É uma espécie de mantra que poderia ser pregado num “restaurante”de herbívoros. Um pasto repleto de vacas. Mastigar, mastigar, mastigar o dia inteiro, converter, durante um tempo enorme da sua vida, celulose, uma substância abundante na natureza mas intragável, em bactérias digeríveis. Comer a toda hora também é uma sina dos herbívoros que imitamos ao adotar uma dieta baseada em vegetais e estabelecer o dogma das três horas de intervalo entre as refeições, se formos incluir os lanches. No paleolítico havia necessidade de intervalos maiores porque já tínhamos aprendido a imitar a alimentação dos carnívoros, mais pausada e entremeada de longos descansos em plena saciedade. Com a escassez das árvores, de onde descemos para a savana, fomos premidos a evoluir para se alimentar de carne e manter a nossa tradição herbívora ao mesmo tempo. Talvez o fato de não sermos estritamente herbívoros e nem estritamente carnívoros tenha sido a chave para a nossa sobrevivência nos tempos difíceis do paleolítico e do nosso encontro com a abundância. Não com a indigência de uma má alimentação do neolítico que nos tornou de estatura menor e com buracos nos dentes. Mas com a abundância e saúde que ainda testemunham os caçadores-coletores atuais preservados nos seu nichos desinteressantes para os agricultores.

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