Aniversário de 60 anos se aproximando…

Amanhã, 11 de novembro de 2013, faço 60 anos. Neste post resolvi resgatar alguns textos que escrevi no passado em alguns dos meus aniversários.

Em 17 de outubro de 2003:

Agora quando estou indo em direção ao meu aniversário de meio século de existência e pela primeira vez com vontade de comemorá-lo, de até mesmo celebrá-lo. Não como auto-afirmação para os outros mas para mim mesmo. A celebração seria como agradecimento póstumo a Nietzche. De fato e efetivamente já estou em celebração por tudo que me foi dado e também tirado por Nietzche que disse profeticamente para si mesmo e para mais ninguém e ao mesmo tempo para todo mundo que a destruição dos valores e a revaloração (melhor seria a transvaloração?) é de cada um e a mesma para todo mundo e diferente para cada um. Que cada livro ou relato de que espécie for de experiência ou opiniões só pode ser “entendida” com a vivência. “…ninguém pode ouvir nas coisas, inclusive nos livros, mais do que já sabe. Para aquilo a que não se tem acesso por vivência, não se tem ouvido. Pensemos então em um caso extremo: que um livro fale de puras vivências que não estão inteiramente fora da possibilidade de uma experiência frequente, ou mesmo apenas rara — que seja a primeira linguagem para uma nova série de experiências. Nesse caso simplesmente nada é ouvido, com a ilusão acústica de que, onde nada é ouvido, também nada há… (Ecce Homo, Coleção Os Pensadores, p. 375)”. Nietzche em todos os seu escritos resolveu, no meu entender, um problema extremamente difícil: como dizer aos outros, como esperar ser ouvido ou ao menos “escutado” se não posso aceitar que me digam nada?. Gritando talvez, vociferando, causando nojo, asco em princípio por Nietzche (ou contra si pois Nietzche se tornou eu mesmo), dirigido a Nietzche, contra Nietzche este “quebrador das tábuas” com seu martelo implacável, e depois contra si mesmo, o único alvo que vale a pena… Obrigado Nietzche por me fazer me dar uma “nova vida”. O momento de me calar está próximo, o momento da volta de Zaratrusta tão aguardado e desejado ainda está por chegar, mas está próximo de mim mesmo que ainda leve mais meio século…

Em 11 de novembro de 2003:

Enfim os 50 anos… Apenas uma data cronológica. Seu significado não está no tempo nem em lugar algum que não seja a vivência possível daqui para frente. É o tempo do bater de asas. Não do entardecer. Mas do amanhecer…

“Quem atingiu dalgum modo a liberdade da razão não se pode considerar na terra outra coisa que um Peregrino, embora não um viajante rumando para uma meta final – pois esta não existe. Contemplará e terá os olhos abertos para tudo que acontece no mundo; não ligará o coração em definitivo a nada de único; deve haver nele algo erradio, pois a sua alegria está no mutável e no inconstante. Por certo cairão noites penosas sobre um homem desse – quando estiver cansado e encontrar fechadas as portas da cidade, que lhe deveria dar repouso. Pode ser, ainda mais, que o deserto chegue até a elas, como no Oriente, e as feras ululem, ora perto, ora longe, e um vento forte se eleve, e os salteadores lhe roubem os animais de carga. Desce então uma noite terrível, como um segundo deserto no deserto, e o Peregrino se sentirá exausto no coração. Quando o sol levantar, abrasando como a divindade da ira, abre-se a cidade, e nas faces dos habitantes ele verá talvez mais deserto, mais sujeira, mais embuste e mais insegurança do que fora de portas – e o dia será quase pior que a noite. Isto pode, na verdade, ocorrer a um Peregrino; mas depois virão, como recompensa, manhãs deleitosas, noutra paragem e noutro dia, onde, através do dilúculo, verá bandos de musas bailarem perto, na névoa das montanhas; onde, em seguida, quando passear à sombra das árvores, na serenidade da manhã, cair-lhe-ão, dentre os ramos e a folhagem, coisas boas e claras, dádivas dos espíritos livres, que se acomodam bem, como ele, nos montes, florestas e solidões, e são, como ele, de maneira ora alegre, ora pensativa, peregrinos e filósofos. Oriundos do mistério da madrugada, pensam no que pode fazer tão pura, luminosa, jovialmente transfigurada a fisionomia do dia entre a décima e a décima segunda pancada do sino: andam a buscar a Filosofia da Manhã.” [Nietzche].

Em 11 de novembro de 2004:

Hoje faço 51 anos. Estou calmo de uma placidez interior que me é estranha. Não me lembro dela anteriormente. De onde veio e como se instalou? Só não digo que é budista por que simpatizo mais com o Taoísmo. Estou vazio e nele está toda a minha plenitude. As possibilidades de preenchimento são inúmeras. Esta sua utilidade. Estou me sentindo serpente e orgiasticamente me arrastando por entre os arbustos e pedras para me livrar da minha pele velha e carcomida para resurgir com a minha pele nova. Ganhei vários presentes da minha família também. Gostei de todos. Foram uma bermuda, uma camisa, um livro sobre Lou Salomé (amada de Nietzshe) e uma sapo (de pelúcia e que coaxa quando apertado)! Serpente gosta de sapo (e de rato), ainda mais se vindo de uma rato e com dedicatória (“Para o sapo mais bonito e divertido; um sapo. Este lhe trará muita sorte!!!”). O sapo e a serpente, a serpente chamada de sapo, a sapoente ou a serpapo, a fusão no uno do predador e da presa, a descoberta de que não existe separação, o sapo se transformando em serpente e a serpente se transformando em sapo…

“Já a minha pele enruga e estala,
Já anseia com um novo ímpeto.
Apesar de tanta terra absorvida,
Desejo uma terra nova.
Já rastejo entre a relva e os calhaus,
Acompanhando o meu rasto tortuoso,
Ávido de comer o meu repasto de sempre:
Tu, sustento de serpente, tu, terra!”
(Na terceira mudança de pele, em A Gaia Ciência, de Nietzsche)

Em 17 de novembro de 2005:

Hoje estou num estado que faria minhas palavras as de Nietzsche quando disse em sua carta a Overbeck: “Se eu pudesse dar-lhe uma idéia do meu sentimento de solidão! Nem entre os vivos nem entre os mortos, não tenho ninguém de quem me sinta próximo. Não se pode descrever como é aterrorizador; e apenas o treino em suportar esse sentimento e o caráter progressivo de sua evolução desde a tenra infância permitem-me compreender que não tenha sido totalmente aniquilado por ele.” Acabei de completar 52 anos de vida no último dia 11. Meu entusiasmo anda muito arrefecido e ando precisando fortalecer meu corpo para melhorar o ânimo. O trabalho tem sugado minhas forças e minha alegria, agora só feita de paliativos. Estou mais para Shopenhauer do que para Nietzsche, o que muito me entristece.

Em 11 de novembro de 2010: https://chicoary.wordpress.com/2010/11/11/aniversario-em-2010/

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