60 anos!?

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Um número redondo na idade pode ter algum significado? Talvez na lei que o define agora como idoso. Eufemismos como “melhor idade”, “boa idade” etc agora podem rotular a sua nova fase na vida. A sociedade quer compensá-lo na letra da lei. A civilização o faz viver mais salvando-o com seu aparato tecnológico. Outorgando-lhe mais anos onde a qualidade é transformada em quantidade. Engordando as estatísticas. Mas nada disto importa muito. Estou mesmo na “melhor idade” há algum tempo. Na idade do “condor” também. Desesperado e desiludido com os decréscimo das minhas capacidades físicas e psicológicas já começava a repetir os mantras da velhice que afirmam que não há muito a fazer. A espera começa a ser a tônica. Filas onde nos botam na frente ou à parte dos jovens podem ser mais lentas porque frequentadas pelos mais lentos. Em outras filas só povoadas por idosos preferíamos não estar lá. Fisioterapias, filas para atendimento, médicos etc agora começam a ser parte importante da vida. Afundar no cotidiano das mazelas da velhice com conformação nunca me atraiu muito. Até hoje me espanto quando me chamam de “senhor”. Como reflexo penso em procurar atrás de mim a pessoa assim tratada. Ainda habita em mim o jovem ingênuo e tímido em espírito renegado pelo invólucro desgastado pelos anos. Acredito que cada velhice pode ser única desde que você tome as rédeas. Eu resolvi tomar na medida do que é possível. E não me importar com o que está fora do meu controle. Mudei minha dieta e ganhei muita disposição. A dieta adotada é totalmente anti-burocrática. E induz à uma vida mais prazerosa se você também abraça o estilo de vida paleolítico (você pode ler meus outros posts sob a tag saúde). Antes que a saúde se torne precária quero me tornar tripulante de veleiro de oceano. Escrever mais também é um objetivo um pouco mais remoto. Espero viver mais (em intensidade) para ter o que contar. E não é preciso buscar a aventura muito longe. Ela está a porta de casa desde que tenha olhos para ver. Andar de bicicleta olhando melhor a cidade ou velejar são o supra sumo para mim. Descansar lendo algo bom é o paraíso. Mudei-me para um lugar ótimo que até estou pensando que os ateus são admitidos no céu. Pleno de amor fati acho que estou na fase leão das transvalorações de Nietzsche. Chegar à ultima, a criança, sem o “fraldão”, é um objetivo. Agora mesmo vou fazer uma viagem de sonho com meu filho que é, antes de tudo, meu amigo. Minha família parece ser feliz apesar de meus filhos, mesmo com o bom caráter que possuem, ainda serem do precariado. O que mais posso querer? Ah! Que minha neta um dia veleje comigo. E que minha família continue incrivelmente me aguentando tão carinhosamente. E também ouvir a grande razão e praticar a grande saúde.

Eu sou todo corpo e nada além disso; a alma é somente uma palavra para alguma coisa do corpo; o corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é, também, a tua pequena razão, meu irmão, à qual chamas ‘espírito’, pequeno instrumento e brinquedo da tua grande razão. NIETZSCHE

Desse isolamento doentio, do deserto desses anos de experimento, é ainda longo o caminho até a enorme e transbordante certeza e saúde, que não pode dispensar a própria doença como meio e anzol para o conhecimento, até a madura liberdade do espírito, que é também autodomínio e disciplina do coração e permite o acesso a modos de pensar numerosos e contrários – até a amplidão e refinamento interior que vem da abundância, que exclui o perigo de que o espírito porventura se perca e se apaixone pelos próprios caminhos e fique inebriado em algum canto; até o excesso de forças plásticas, curativas, reconstrutoras e restauradoras, que é precisamente a marca da grande saúde, o excesso que dá ao espírito livre o perigoso privilégio de poder viver por experiência e oferecer-se à aventura: o privilégio de mestre do espírito livre! No entremeio podem estar longos anos de convalescença, anos plenos de transformações multicores, dolorosamente mágicas, dominadas e conduzidas por uma tenaz vontade de saúde, que freqüentemente ousa vestir-se e travestir-se de saúde. Há um estado intermediário, de que um homem com esse destino não se lembrará depois sem emoção: uma pálida, refinada felicidade de luz e sol que lhe é peculiar, uma sensação de liberdade de pássaro, de horizonte e altivez de pássaro, um terceiro termo, no qual curiosidade e suave desprezo se uniram. Um “espírito livre” – esta fria expressão faz bem nesse estado, aquece quase. Assim se vive, não mais nos grilhões de amor e ódio, sem Sim, sem Não, voluntariamente próximo, voluntariamente longe, de preferência escapando, evitando, esvoaçando, outra vez além, novamente para o alto; esse homem é exigente, mal-acostumado, como todo aquele que viu abaixo de si uma multiplicidade imensa – torna-se o exato oposto dos que se ocupam de coisas que não lhes dizem respeito. De fato, ao espírito livre dizem respeito, de ora em diante, somente coisas – e quantas coisas! – que não mais o preocupam… NIETZSCHE

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