Teoria do Caribe

Onfray, em sua Teoria da viagem, afirma que uma poética da viagem se faz necessária além da prosa, onde os detalhes menos abstratos e “prosaicos” do viajante atendem ao seu anseios de fruição máxima dos lugares visitados.

Mas se “amor é prosa e sexo é poesia” (Rita Lee) na viagem a prosa representa o turista enquanto a poética o viajante, o andarilho (e talvez sua sombra)
e suas impressões, pura sensualidade. As sensações de maravilhamento entremeadas de prosa descritiva e recheada de poesia brotando do coração antes que da mente. A busca incessante do paraíso perdido. Wunderbar! O Caribe se presta mais do que muitos lugares a este sonho e à sua realização. Mesmo que efêmera. Mas “posto que é chama”, eterna. Uma lembrança “eterna” a servir de moldura para uma vida ponteada de saudades do Caribe.

Tenho que me conter para não fazer do Caribe uma coisa menor diante do meu mais avantajado sonho polinésico. Estar no Caribe com todo meu “amor fati” é uma plena negação do homem pequeno que em mim teima habitar e que quer estar em um lugar ressentindo-se de outro.

No Caribe existe uma praia. Nas imagens habitada por uma pequena árvore cuja sombra oscula a exígua rebentação de águas límpidas. Nesta minúscula sombra quero no futuro estar para marcar minha presença com minha silhueta. Como os japoneses. Com uma foto para dizer à posteridade: eu estive aqui! Ainda como os japoneses para transformar uma curta estada em algo que possa render reminiscências para o ano todo. Com o risco de só ver o mundo por trás das lentes. Este impulso deve ser um tanto contido para não contaminar demais  a viagem já que serve  mais aos outros  e atrapalha a busca de si de que Onfray fala.

Onfray fala também da geografia e da história. E nisso parece concordar com a ênfase de Jared Diamond em seu “Armas, germes e aço”, ao dizer em seu Teoria da Viagem que: “Aniquilação do império soviético: as extravagâncias humanas nada significam. Do ponto de vista da eternidade, a geografia triunfa, a história não é mais que espuma”.

Apesar da poética e do sonho quero também me preparar. Pretendo munir-me de informação, mas não para me escravizar a ela. Apenas como moldura para que o bem-vindo acaso não se transforme em caos. Mas o espaço para a serendipidade está garantido. Para encontrar o esperado no inesperado (ou vice-versa). “Na verdade, o Guia, a Prosa, o Poema e o Atlas oferecem a ocasião daquilo que Plotino chamava uma dialética descendente: detalhes, lembranças, ideias, conceito, tudo contribui para a solicitação do desejo: descobrimos, sustentamos, alimentamos o desejo, depois o usufruímos, ele nos constrói tanto quanto construímos. De uma maneira acima de tudo platônica, solicitamos a ideia de um lugar, o conceito de uma viagem, e então partimos para verificar a existência real e factual do local cobiçado, entrevisto pelos ícones, pelas imagens e pelas palavras. Sonhar um lugar, nesse estado de espírito, permite menos encontrá-lo do que reencontrá-lo. Toda viagem vela e desvela uma reminiscência.”, diz Onfray.

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