A rebelião das massas – parte 2

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Comecei a ler o livro Urgência das Ruas e entender melhor um pouco dos anseios dos Black Blocks. Para ilustrar melhor vou citar abaixo alguns trechos que me chamaram a atenção no livro.

ANTES DE TUDO…

Este livro não é sobre o “movimento antiglobalização”. Tal movimento foi criado na tela da TV e nas colunas dos jornais burgueses. Infelizmente, cada vez mais pessoas que têm protestado nas ruas do mundo estão assumindo essa identidade forjada pela mídia, delegando assim explicitamente esse poder a ela. A definição dos próprios termos da discussão, impondo assim limites a uma suposta dissidência, é o próprio diagnóstico da saúde de qualquer relação de poder. Ele também não pretende ser um retrato totalizante dos grupos e pessoas… Apreender tamanha diversidade exigiria uma enciclopédia e não apenas um volume, se é que tal empreendimento é possível. Reduzir a complexidade da vida transformando-a em  produto para o consumo de espectadores é a especialidade da mídia. Deixemos esse trabalho sujo a ela.

[…] a contestação praticada nas ruas, organizada basicamente por grupos de afinidade de forma autogestionária, isto é, não-hierárquica, não burocrática e autônoma, naturalmente tenta ser capitalizada na forma de dividendos políticos pela esquerda capitalista: representada por ONGs (Organizações Não Governamentais) e partidos que buscam maior espaço na gestão do capitalismo. Certamente categorias tão carregadas de peso moral como violência e não-violência têm tudo para se tornarem artifício retórico reacionário no contexto de levantes populares. Todas as “greves selvagens” e insurreições populares, dos communards aos zapatistas, sempre foram pelo menos em algum momento – até quando os defensores da ordem estabelecida puderam sustentar seus discursos – descritas como irrupções de violência, na tentativa de isolá-Ias, criminalizá-Ias e desqualificá-Ias moralmente. Se levarmos em conta que as ações dos Black Blocks nessas manifestações-bloqueio feriram sem gravidade no máximo apenas alguns poucos policiais, enquanto milhares de manifestantes saíram feridos pelas investidas policiais, tachá-Ios de “violentos” deveria ser algo risível, que só demonstra o quanto àqueles que assim os rotulam ainda se encontram imersos e devedores da moral e da ordem burguesa. Dessa forma, os Black Blocks têm levantado e explicitado certos conflitos que aparecem também no Sul, onde muito freqüentemente os burocratas de esquerda são os primeiros a isolar, criminalizar e condenar indiscriminadamente as “minorias violentas”, os “provocadores”, aqueles que “não têm nada a dizer”. E nem sequer são capazes de reconhecer um fato que deveria ser lugar-comum, expressado nas palavras de um manifestante durante a reunião do G-8 em Gênova (Itália):

“Nenhum político e nenhum grande banqueiro ficará impressionado com 500 mil manifestantes pacíficos, uma vez que não haja dúvida de que eles irão permanecer não-violentos todo o tempo. Somente a possibilidade de radicalização torna um movimento ameaçador e por conseqüência forte”.

A questão que se coloca é por que sempre foi preciso a “agitação das massas” para que os donos do poder cedam, para que sintam alguma ameaça? Em outras palavras: o que na “agitação das massas” traz um medo ao status quo causando-lhe uma pressão que a expressão verbal, entre outras, não causa? Foucault salientava que a disciplina que mantém e define um determinado ordenamento social é uma técnica de operação sobre os corpos de modo a obter um resultado concreto. A disciplina dos corpos exprime a estabilidade de um sistema. Uma sala de aula só “funciona” porque os corpos dos alunos, isto é, os alunos, estão disciplinados a se disporem de uma determinada maneira. E assim é em todos os espaço-tempos na sociedade, de um teatro, passando por um exército, um show de rock ou a locomoção pelas ruas. A indisciplina do corpo em um determinado espaço-tempo, ordenado sob uma disciplina específica, pode levar o sujeito muitas vezes à prisão ou ao hospício. O “delito” e a “loucura” são algumas das criações que a nossa sociedade reservou para os corpos indisciplinados. Manifestantes que transformam seus corpos em catapultas, que atiram pedras em barreiras num espaço que exige uma outra disciplina (ou uma disciplina), quebrando a rotina e a tranqüilidade dos que dirigem e comandam a economia e a política, demonstram (pelo menos em certo período e espaço) a ausência daquilo que mantém as coisas em ordem e o capitalismo em vigor: a disciplina. As ruas não são o local determinado no capitalismo para corpos atirarem pedras e nem serem barricadas, e não são o local para enfrentamentos econômicos e políticos: as mesas de “negociações” e o parlamento são os espaços na nossa sociedade para isso. Uma vez que os Reclaim The Streets e os Black Blocks são formações voltadas à ação e não à produção teórica – podendo até mesmo serem compreendidos como formas de ação nas ruas -, os artigos e declarações produzidos por seus integrantes perdem o sentido se destacados das próprias ações a que se referem. Por esse motivo este livro possui também o caráter de relato histórico e cronológico dos Dias de Ação Global desde sua gênese no início de 1998.

Os textos acima, parcialmente reproduzidos aqui,  servem de introdução ou prefácio ao resto do livro.

Leia a parte 3.

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Uma resposta para “A rebelião das massas – parte 2

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