A rebelião das massas

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As manifestações recentes no Brasil trouxeram a baila um protagonista que eu nunca tinha prestado atenção anteriormente a ponto de mesmo não me lembrar de ter lido alguma referência ao mesmos. Os Black Blocks ou Black Blocs. Talvez algum “bloqueio” tenha atuado na minha mente pois provavelmente teriam sido associados ao anarquistas, baderneiros e vândalos, conectando os a uma instintiva rejeição por associação à violência e ao assédio dos bandidos à nossa tranquilidade desejada de cidadãos arrebanhados pelo establishment.

Intrigado pela forma diferente com que exerciam a violência contra apenas a propriedade de algumas fachadas de empresas e as táticas que usavam para ocultar a identidade e ao mesmo tempo elaborar um identidade coletiva ao se uniformizarem com trajes negros parecidos resolvi investigar mais um pouco sobre quem eram.

Comecei a ler as notícias (e ver o noticiário televisivo) sobre as manifestações dando mais atenção às intervenções dos Black Blocks. A percepção instintiva imediata era de que eles eram agitadores oportunistas ou mesmo vândalos gratuitos que só ajudariam a justificar a repressão e atrapalhariam por retirar o foco das reinvidicações das massas pacificamene manifestadas.

Esta percepção ainda era reforçada pelo martelar da mídia que repetidamente usava o termo vândalos aparentemente até exultante por ter um tema de fácil acesso para a maioria que é a rejeição à violência.

Um fato curioso e na contra corrente do pensamento instintivo de que os Black Blocks eram necessariamente um mal veio da notícia cujo título é  Sepe mantém greve e diz que defende Black Blocs da polícia. Acredito que a solidariedade aos professores por parte dos anarquistas tenha levado à uma simpatia pelo grupo. O tópico anarquismo na Wikipedia descreve este aspecto:

Anarquia significa ausência de coerção e não a ausência de ordem. A noção equivocada de que anarquia é sinônimo de caos se popularizou entre o fim do século XIX e o início do século XX, através dos meios de comunicação e de propaganda patronais, mantidos por instituições políticas e religiosas. Nesse período, em razão do grau elevado de organização dos segmentos operários, de fundo libertário, surgiram inúmeras campanhas antianarquistas. Outro equívoco banal é se considerar anarquia como sendo a ausência de laços de solidariedade (indiferença) entre os homens, quando, em realidade, um dos laços mais valorizados pelos anarquistas é o auxílio mútuo. À ausência de ordem – ideia externa aos princípios anarquistas -, dá-se o nome de “anomia”

Fonte: Wikipedia

Já outra notícia mostra preocupação com esta atitude do sindicato dos professores:

“O sinal mais preocupante, no entanto, vem de um manifesto no qual o Sepe diz defender “incondicionalmente os black blocs das ações policiais”.

O vídeo abaixo mostra um manifestante na dúvida sobre qual mascarado estava realmente ao seu lado.

Enquanto que num post onde o assunto dos black blocks é abordado, nas entrelinhas de um texto que parece compreender as razões da revolta dos jovens, há claramente uma admoestação aos métodos usados pelos mesmos jovens e que é sintetizada nos últimos parágrafos do post:

“Por mais que discorde desses jovens, não posso negar que é bonito ver como acreditam no que estão fazendo. Julgam que estão ajudando o país. Não percebem que estão fazendo o contrário. E se não percebem a culpa é nossa, da geração anterior que não soube educar esta transmitindo-lhe a importância da democracia.

Quando jovens descreem completamente da política ao ponto de atacar seus símbolos estão abandonando o caminho democrático para mudar o país para melhor e apelando para a barbárie, como se esta fosse resultar em algo mais além de um excelente pretexto para alguns espíritos autoritários invocarem uma repressão que a minha geração conheceu muito bem.

Não sei se há tempo para chegar a essa juventude e convencê-la a não dar pretextos para que autoritários desencadeiem a boa e velha reação contra demandas legítimas da sociedade, mas, seguramente, não podemos tratá-la como criminosa ou vilã. É, no máximo, vítima da geração anterior, que não soube lhe transmitir valores e legar-lhe o país que deveria.”

Ao mesmo tempo, com uma celeridade exemplar, uma nova lei federal foi aprovada e colocada em vigor em setembro de 2013: a Lei de Organização Criminosa (número 12.850). Numa notícia há um parágrafo que sugere que a lei pode ser usada contra os vândalos:

“A Polícia Civil do Rio anunciou que vai usar a nova Lei de Organização Criminosa, uma norma federal que entrou em vigor em setembro e prevê punição de até 13 anos e qutro meses de prisão, para punir as pessoas flagradas em atos de vandalismo durante as manifestações promovidas na capital fluminense.”

O filósofo Ghiraldelli coloca também o seu “grão de sal” na polêmica sobre os Black Blocs:

Os mascarados

“Sem ter cometido qualquer ato ilegal e não estando em “atitude suspeita” em “lugar suspeito”, mas apenas andando na rua com um cartaz, o cidadão pode ser conduzido pela polícia à delegacia, onde terá de “bater os dedos” –fichamento!

As cidades que optaram por tal medida vivem o banimento daquela liberdade básica do Estado de Direito das democracias liberais modernas. Duvido que isso tenha respaldo em nossa Constituição.”

“A resposta das autoridades às manifestações de rua de junho último já virou fumaça. Entraremos em ano eleitoral e de Copa com uma população que, estando bem ou não economicamente, tem lá sua parcela de insatisfação, pessoas que estão realmente esgotadas de serem tratadas com descaso ou violência.

Como os governantes pensam em lidar com isso? Parece que eles estão com uma fórmula meio velha e inócua nas mãos.”

Conservadorismo político gera mais reclamações sobre mascarados que sobre ações do PCC

“Os que ficam muito tempo diante da TV e andam pouco nas ruas têm uma facilidade grande em reproduzir mentiras vindas pela telinha, principalmente se essas mentiras ajudam a tranquilizar o espírito já petrificado, avesso à investigação empírica para além do amálgama de imagens. É exatamente a propagação e a reiteração da mentira, o que mais tenho visto por esses dias, principalmente entre os que resolveram assimilar a imagem de qualquer pessoa quebrando porta de banco a um comportamento dos Black Blocs.”

“Aliás, essas pessoas, tanto à esquerda quanto à direita, reclamam bem menos quando São Paulo e Rio param por causa de guerra entre PCC e polícia. Mas, quando a TV filma papelão pegando fogo à noite, de modo a imitar uma praça de guerra, e fala de “mascarados de preto”, ah, aí sim vemos como que aparece lá uma professora de esquerda para dizer que há fascistas nas ruas, e sua voz se une a do professor de direita, que só falta dizer que ele mesmo viu barricadas nas ruas, já quase como na Comuna da Paris. A imaginação desse pessoal é infantil quando se trata de falar sobre política.”

“Para o bem ou para o mal, esse pessoal olha para os Black Blocs com lente de aumento e, ainda por cima, olham torto. Claro que se eles quisessem ser sérios olhariam o Youtube, sairiam às ruas, conversariam com os Black Bloc, participariam de manifestações, e então veriam algo mais próximo da realidade. Mas a realidade é muito simples, não é tão fantástica como na imagem da TV, que funde acontecimentos sem qualquer critério. Esses professores, esses analistas, preferem viver esse “clima de revolução” que em parte eles próprios inventaram nessa proporção. Agora, quando ocorre realmente algo digno de ser comentado, que foi o ataque da polícia aos professores, seguido da defesa desse pessoal feita pelos Black Blocs, aí não encontramos mais esses professores de esquerda e direita para comentar. Eles estão de volta ao sofá, tomando lições com William Bonner e outros similares.”

Anarquistas foram os primeiros a levar a sério a ideia do mundo moderno como “sociedade do espetáculo”

“Anarquistas e anarco-sindicalistas, diferente dos marxistas, sempre deram muita importância para as imagens, para o “espetáculo da revolução social”, tendo como exemplo os acontecimentos mais sangrentos da Revolução Francesa. A guilhotina, as barricadas e o coquetel molotov eram as imagens que os anarquistas mais gostavam de reproduzir em seus jornais – no mundo todo, inclusive no Brasil. Eles foram os primeiros a levar a sério aquilo que, bem depois, iríamos começar a observar segundo nossas teorias sociológicas e filosóficas: a ideia do mundo moderno como o abrigo da “sociedade do espetáculo”. Os libertários cultivaram antes as imagens da violência que a própria violência. Mesmo quando aderiam a atos tidos como violentos, buscavam exibir uma violência simbólica, que deveria funcionar como ícone, e não a violência propriamente dita.”

Fontes: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/10/1354892-paulo-ghiraldellios-mascarados.shtml e http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-10-14/a-mentira-da-direita-medrosa-e-da-esquerda-carcomida-a-respeito-dos-black-blocs.html e http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-10-16/o-segredo-especial-dos-black-blocs.html

A citação do Ghiraldelli no terceiro link remete ao livro A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, do qual cito:

O sistema econômico fundado no isolamento é uma produção circular do isolamento. O isolamento fundamenta a técnica, e, em retorno, o processo técnico isola. Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das «multidões solitárias». O espetáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos.

A origem do espetáculo é a perda da unidade do mundo, e a expansão gigantesca do espetáculo moderno exprime a totalidade desta perda: a abstração de todo o trabalho particular e a abstração geral da produção traduzem-se perfeitamente no espetáculo, cujo modo de ser concreto é justamente a abstração. No espetáculo, uma parte do mundo representa-se perante o mundo, e é-lhe superior. O espetáculo não é mais do que a linguagem comum desta separação. O que une os espectadores não é mais do que uma relação irreversível com o próprio centro que mantém o seu isolamento. O espetáculo reúne o separado, mas reúne-o enquanto separado.

O texto acima pode nos fazer imaginar que as manifestações, além do seu cunho prático de expressar reivindicações com veemência e reforçar a necessidade de encaminhar soluções, também expressam o desejo de ultrapassar o isolamento, a separação cotidiana imposta pela sociedade do espetáculo, e mediar isto também com um como espetáculo, mas feito de coesão em bloco, sem muita ideologia, visceralmente, fisicamente, nas ruas.

Os temas complexos aflorando das manifestações podiam agora ser varridos para fora da atenção e a falsa tarefa de conter os violentos vândalos era proposta com unanimidade pela maioria da mídia e com reverberação por aqueles influenciados por ela.

Aí veio a virada na minha percepção quando encontrei, por acaso num sebo, o livro Urgência das Ruas.

Leia a parte 2.

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3 Respostas para “A rebelião das massas

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