I did it!


Lendo o livro América de Baudrillard (queimado em frente ao seu hotel quando lançado em 1980 nos EEUU) topei com um texto citando a maratona de NY que convida uma interessante reflexão sobre um conceito do herói moderno.

Correr, para muitos, dá um sentido à vida através da sua sensação de poder, vitalidade e prova de saúde. Saúde do corpo. Do espírito? Nem tanto (segundo Baudrillard). Para ilustrar melhor reproduzo o trecho mais abaixo.

Jamais poderia acreditar que a maratona de Nova Iorque fosse capaz de me arrancar lágrimas. É um espetáculo de fim do mundo. Pode-se falar de sofrimento voluntário, como de servidão voluntária? Sob a chuvarada inclemente, sob os helicópteros, sob os aplausos, revestidos de um capuz de alumínio e de olho no cronômetro, ou de torso nu e os olhos esgaseados, todos buscam a morte, a morte por exaustão, que foi a do corredor de há dois mil anos que, não esqueçamos, levava a Atenas a mensagem de uma vitória. Sem dúvida, eles também sonham em transmitir uma mensagem vitoriosa, mas são numerosos demais e a mensagem deles já não tem mais qualquer sentido: é a de sua própria chegada, ao término do enorme esforço — mensagem crepuscular de um esforço sobre-humano e inútil. Coletivamente, eles levariam antes a mensagem de um desastre da espécie humana, pois a vemos degradar-se de hora a hora até a fita da chegada, desde os primeiros ainda em boa  forma e competitivos até aos destroços que seus amigos carregam literalmente até à meta ou aos deficientes físicos que cobrem o percurso em cadeiras de rodas. São 17.000 correndo e pensa-se na verdadeira batalha de Maratona, onde nem mesmo chegavam a 17.000 os combatentes.  São 17.000 e cada um corre sozinho, sem mesmo o espírito de uma vitória, simplesmente para sentir que existem. “Vencemos!” murmura, ofegante, o grego da Maratona ao expirar. “I did it!” suspira o corredor exausto ao despencar  no gramado do Central Park.

I DID IT!

O “slogan” de uma nova forma de atividade publicitária de performance autística, forma pura e vazia, e desafio a si mesmo, que substituiu o êxtase prometéico da competição, do esforço, do êxito.

A maratona de Nova Iorque tornou-se uma espécie de símbolo internacional dessa performance fetichista, do delírio de uma vitória em vazio, da exaltação de uma façanha sem conseqüência.

Corri na maratona de Nova Iorque: “I did it!”

Venci o Annapurna: “I did it!”

O desembarque na Lua é da mesma ordem: “We did it!”. No fundo, um evento menos surpreendente porque programado de antemão na trajetória do progresso e da ciência. Tinha que ser feito. Foi feito. Mas esse evento não renovou o sonho milenar do espaço; de certo modo, esgotou-o.

Existe o mesmo efeito de inutilidade em toda a execução de um programa, como em tudo o que se faz simplemente para se provar que se é capaz de o fazer: um filho, uma escalada, uma proeza sexual, um suicídio.

A maratona é uma forma de suicídio demonstrativo, de suicídio publicitário: é correr para mostrar que se é capaz de ir até o fim de si mesmo, para provar…provar o quê? Que se é capaz de chegar. Também os “graffiti” não dizem outra coisa senão: Chamo-me Fulano e existo! Eles fazem uma publicidade gratuita à existência!

Será necessário dar continuamente prova de sua própria vida? Estranho sinal de fraqueza, sinal precursor de um novo fanatismo, o da performance sem rosto, o de uma evidência sem fim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s