O primeiro mentiroso

Um colega de trabalho sugeriu que eu assistisse o filme “O primeiro mentiroso“. Explicou rapidamente que se tratava de uma comédia sobre um mundo hipotético onde todos falavam somente a verdade. E que o personagem principal, que até determinado ponto só falava a “verdade” como todo mundo, descobre algo inominável: a mentira. Não tinham palavra para expressar o conceito porque não tinham o próprio conceito (já escrevo aqui um pouco da minha compreensão do filme). Num dado momento começaram a nomeá-lo “o que não era”. A comédia é romântica mas deixa uma “pontas” que podem muito bem ser amarradas “filosoficamente”. Pensei até no filme como apoio para uma discussão sobre o conceito de verdade e mentira. Não pude deixar de lembrar de que o tema é caro a Nietzsche que o discutiu na sua obra “Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral”. Achei até um interessante resumo comentado do qual reproduzo uma parte a seguir:

Nietzsche nos oferece uma oportunidade para abrirmos os olhos e pararmos de roncar: De onde neste mundo viria, nessa constelação, o impulso a verdade!. Ele nos coloca a questão mais fundamental: como podemos esperar ouvir a verdade do mestre da mentira sem que mintamos para nós mesmos? Concebendo a verdade como um tratado de paz, possibilitador da vida social do homem, ele chega a um primeiro contraste entre verdade e mentira: o mentiroso usa as designações válidas, as palavras para fazer aparecer o não-efetivo como efetivo; ele diz, por exemplo: ‘sou rico’, quando para seu estado seria precisamente ‘pobre’ a designação correta. O mentiroso efetiva-se ao expressar alguma coisa diferente do que percebe e sente como realidade. Porém, ele só será punido em consideração aos seus fins e objetivos. Por si só, a verdade e a mentira nada significam de bem ou de mal: diante do conhecimento puro sem conseqüências ele (o homem) é indiferente. O que faz diferença e caracteriza ainda mais a verdade como um acordo político, uma criação puramente humana, são as conseqüências advindas tanto da verdade como da mentira. O que o homem odeia é ser prejudicado tanto por uma, quanto por outra. Se o resultado da mentira é benéfico, então a verdade, em oposição, não é desejada e, até mesmo, repelida. Ao assumir uma verdade hostil e prejudicial, de alguma maneira, a sociedade que o cerca, este indivíduo, assim como o mentiroso, sofre a punição, que se caracteriza geralmente por perda de confiança e isolamento.

http://irreversivel.wordpress.com/verdade-e-mentira/

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