Ortega Y Gasset, a aventura da razão

Comprei o livro Ortega Y Gasset, a aventura da razão, de Gilberto de Mello Kujawski. Achei na Feira de Livros da Carioca. Gasset já está há algum tempo no meu radar e aproveitei ter encontrado este livro para obter um primeiro contato. Agora vou procurar traduções. No próprio livro do Kujawski já encontrei comentários e citações que me atraíram:

Mais do que qualquer outro filósofo contemporâneo, Ortega radicalizou o envolvimento do homem com o cotidiano. Mas, cuidado, “cotidiano” não significa aqui a negação da aventura. Pelo contrário, no cotidiano está sempre encapsulada a aventura. Por cotidiano não se entenda a simples rotina, a monotonia do contorno e a repetição ao infinito das mesmas condutas um dia após o outro. Para quem vive alerta e autenticamente, desde o mais fundo do próprio ser, o cotidiano representa um desafio permanente no qual podemos ganhar ou perder, um enigma que ou deciframos, ou ele nos devora. Participar do cotidiano é descobrir a heterogeneidade de cada momento, o drama de cada pessoa, o sentido de cada coisa, de cada fato que nos oprime. Viver autenticamente o cotidiano é cavalgar a aventura.

Kujawski

Enquanto Unamuno queria a Espanha africana Gasset a queria européia. A Espanha depois dos tempos de afastamento e introspecção devia integrar-se preferencialmente à sua “circunstância” européia. Quando Gasset diz a sua frase “resumo”: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo não me salvo eu.”, a frase é quase um programa sobre a sua circunstância que era a Espanha e que ele devia salvar. Uma Espanha humilhada e alijada de si mesma, sem mais ter seu império e inferior no cenário cultural da Europa. Além dessa perspectiva, digamos, histórica, há a perspectiva de encarar a frase como o núcleo de gravitação da filosofia de Gasset. Como se todo o fragmentário texto de Gasset fosse um grandioso comentário dessa frase.

Seria a ambição suprema da filosofia chegar a uma só proposição na qual dissesse toda a verdade. As mil e duzentas páginas da Lógica de Hegel são só a preparação para poder pronunciar, com toda a plenitude do significado, esta frase: “A idéia é o absoluto”. Esta frase, na aparência tão pobre, tem na realidade um sentido literalmente infinito. E, ao pensá-la devidamente, todo este tesouro de significações explode de uma vez, e de uma vez nos esclarece a enorme perspectiva do mundo. A esta iluminação máxima chamava eu compreender.

Ortega Y Gasset

Eu e meus botões, de certa feita, imaginávamos uma inversão entre o status conceitual atribuído à superfície e à profundidade como categorias que expressariam o que é imediato, ligeiro, “superficial” e o que é elaborado, só para os iniciados, “profundo”. Os que gostam como eu de fazer da exploração da “superfície” a sua “profundidade” discordamos da alegação dos “profundos”, da profundidade e dos seus apologistas. Imaginávamos que falavam mais do que não sabiam já que só a superficie nos é revelada enquanto que a profundidade era só um possibilidade exploratória. Falar do profundo seria então sempre de caráter especulativo e sem valor de realidade. O antagonismo entre essência e aparência transmutado para profundidade versus superficie e a fusão “essência e aparência são uma coisa só” para “profundidade e superficie são uma coisa só” recupera para os “superficiais”, as serpentes que descansam nas profundezas, entocadas, mas fazem da superficie e do seu rastejar de caça, a parte mais vibrante e viva, a sua profundidade. Quando no mar, eu, discípulo mais de Eolo do que de Netuno, sempre pensava que a superficie do mar era para a minha fruição enquanto Netuno, nas profundezas, esperava para o acerto final. Vi então na metáfora do bosque de Gasset uma elaboração mais ampla da “minha teoria da superfície e da profundidade”. A questão da possibilidade e da escolha dos trajetos gerando a circunstância comandanda pelo “eu” e ao mesmo tempo pelo eu ampliado em “eu e a minha circunstância” indo tudo em direção à salvação aguçaram meu interesse. A questão da salvação parece ser um cerne para o amor à filosofia pois quem não almeja a salvação? Pensa-se e se estuda filosofia para salvar-se, concordando com Gasset.

O bosque

Com quantas árvores se faz uma selva? Com quantas casas, uma cidade? Cantava o lábrego de Poitiers

La hauteur des maisons
empeche de voir la ville,

e o adágio germânico afirma que as árvores não deixam ver o bosque. Selva e cidade são duas coisas essencialmente profundas, e a profundidade está condenada de maneira fatal a converter-se em superfície se se quer manifestar.

Tenho agora ao meu redor cerca de duas dúzias de carválhos circunspectos e de freixos gentis. É isto um bosque? Certamente não. Estas são as árvores que vejo do bosque. O bosque verdadeiro se compõe das árvores que não vejo. O bosque é uma natureza invisível — por isso em todos os idiomas conserva seu nome um halo de mistério.

Posso levantar-me agora e tomar uma dessas vagas veredas por onde vejo cruzarem melros. As árvores que antes eu via serão substituídas por outras análogas. O bosque, ir-se-á decompondo, desgarrando-se numa série de trechos sucessivamente visíveis. Mas nunca o encontrarei aqui onde estou. O bosque foge dos olhos.

Ao chegarmos a uma dessas breves clareiras em meio a verdura, parece-nos que havia ali um homem sentado sobre uma pedra, os cotovelos nos joelhos, as mãos no rosto, e que, precisamente quando chegávamos, levantou-se e foi-se embora. Suspeitamos que este homem, dando pequena volta, foi colocar-se na mesma posição longe de nós. Se cedemos ao desejo de surpreendê-lo — subjugados por esse poder de atração que exerce o centro do bosque sobre quem o penetra —, a cena se repetirá indefinidamente.

O bosque está sempre um pouco mais além de onde nós estamos. De onde chegamos acaba de sair, restando somente suas pegadas ainda frescas. Os antigos, que projetavam em formas corpóreas e vivas as silhuetas de suas emoções, povoaram as selvas de ninfas fugitivas. Nada mais exato e expressivo. Conforme caminhais, volvei rapidamente o olhar para uma clareira na espessura e vereis um tremor no ar, como para preencher o oco que deixou, ao fugir, um ligeiro corpo nu.

De qualquer um de seus pontos o bosque é, a rigor, uma possibilidade. É uma vereda por onde nos poderíamos internar; é um manancial de onde nos chega um débil rumor nos braços do silêncio, e que poderíamos descobrir a poucos passos; são versículos de cantos que soltam, ao longe, pássaros em ramagens sob as quais poderíamos repousar. O bosque é uma soma de possíveis atos nossos, que, realizados, perderiam seu valor genuíno. O que do bosque se coloca perante nós de maneira imediata é só pretexto para que o demais fique oculto e distante.

Ortega Y Gasset in Meditações do Quixote

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2 comentários

  1. Comprei hoje A DESUMANIZAÇAO DA ARTE, de
    Jose Ortega Y Gasset. Parece que algumas obras estão esgotadas nas versões traduzidas. Talvez seja mais fácil encontrar em espanhol.

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