Polêmica, tênis, frescobol, Rubens Alves e Foucault

 

Não resisti, olhando o site de Rubem Alves, de citar alguns textos ótimos (e é difícil escolher) do mesmo:

  • Proseando
  • O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre.

Vi uma ligação dos textos acima com o  POLÊMICA, POLÍTICA E PROBLEMATIZAÇÕES, do Foucault. Abaixo cito um trecho:

Perguntas e respostas fazem de um jogo – jogo agradável e ao mesmo tempo difícil – em que cada parte procura usar apenas os direitos que lhe são dados pelo outro e pela forma consentida do diálogo.

O polemico, pelo contrário, procede atrelado a privilégios que detém antecipadamente e que não aceita nunca de pôr em discussão. Possui, por princípios, os direitos que o autorizam à guerra e que fazem desta luta uma empresa justa; diante dele não está um companheiro na busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que errou, que é prejudicial e cuja existência constitui uma ameaça. Para ele, portanto, o jogo não consiste em reconhecer o outro como sujeito que tem direito à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer possível diálogo, e o seu objetivo final não será o de aproximar-se quanto possível de uma verdade difícil, mas o de fazer triunfar a justa causa de que se proclama, desde o inicio, o porta-voz. O polemico apoia-se em legitimidade da qual o seu adversário é, por definição, excluído.

Talvez um dia será necessário escrever a longa historia da polêmica como figura parasitária da discussão e o obstáculo à busca da verdade.

Foucault

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4 comentários

  1. […] Eu sou uma daquelas pessoas cujas mãos começam a coçar, cuja língua tenta fugir de dentro da boca, cujo peito não lida nada bem com o silêncio em época de eleições. Aliás, não apenas em época de eleições, mas sempre que algum tema relevante- acerca do qual eu tenha opinião formada- vem à tona. Sou daquelas chatas que vai estudar, vai ler 20 reportagens de veículos de comunicação diferentes e depois conversa com 8 amigos, 5 parentes e 3 desconhecidos de opiniões diversas sobre esses assuntos polêmicos, tentando embasar o que pensa. Pertenço a uma espécie que sofre: a que julga que silenciar é compactuar com o que está acontecendo, independente de sua posição política. Por isso nós nos manifestamos, discutimos, nos chateamos, chateamos os outros e nos desiludimos com o mundo. Não tenho dúvidas de que a minha vida seria mais fácil se eu me interessasse apenas sobre cores de batom e campeonato brasileiro. Mas, enfim, cada um sente o que sente, cada um luta pelas suas razões. Mas em meio a tantas razões e tanto sentimento, começam os embates. Opiniões divergentes, respostas ácidas, questionamentos, provocações. Pessoas queridas nos frustram, pessoas às quais somos indiferentes mostram-se necessárias. Arame farpado, rosas cheias de espinhos. E surge a polêmica pergunta: vai deixar que a amizade de vocês acabe por política? Não. As amizades não acabam por política. Amizade de verdade, com gente boa, não acaba por pensarmos igual, muito menos por pensarmos diferente. Isso nunca. Não se rompe amizade por causa do número da legenda partidária, nem por visões distintas da economia, nem por prioridades políticas diferentes. O que pode acontecer é descobrirmos que certas pessoas simplesmente não são quem nós pensávamos que eram. No momento em que nós descobrimos que pessoas que nos cercam utilizam argumentos racistas, a amizade realmente precisa acabar. Quando fica claro que alguns amigos se orgulham do próprio machismo, é preciso deixá-los para trás. Quando aquele velho conhecido do prédio revela seu discurso homofóbico de ódio, vá embora. Quando a amiga da sua mãe disser que pobre não devia ter direito a voto, corte relações. Piadas com violência sexual. Ode à ditadura. Incitação à violência. Tratar animais melhor do que trata os empregados. Novas versões do fascismo. Xenofobia. Nós não podemos relativizar essas coisas. A gente precisa se posicionar, por mais dolorido que seja. As amizades não acabam por causa de política, acabam porque a gente descobre que tem gente que era querida, mas que se revela nojenta. E quando elas se mostram assim, o afeto pega suas malas vai embora. Porque o afeto não se engana. Ele sabe que permanecer ao lado delas, conhecendo-as assim, seria uma nítida forma de compactuar com o ódio, a pequeneza e a miserabilidade dentro da qual residem as piores formas de segregação e violência. As amizades não acabam por causa de política. Acabam porque a discussão política muitas vezes revela a verdadeira cara de muita gente. E essas caras não são, nem nunca serão caras amigas. As conversas não são mais prazerosas e liberadas para qualquer assunto como aconselha Georg Simmel (Veja o texto mais abaixo). Agora discutir política, na verdade politicagem ou fla-flu político, é sempre como uma partida de tênis em vez de frescobol. […]

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