Três dias de Jazz

Nos dias 13, 14 e 15 da semana passada fomos eu e Iane para o Jazz Festival no Teatro Ginástico do SESC que fica na Av. Graça Aranha. Foi uma maratona e eu fiquei bastante cansado. No primeiro dia gostei bastante de Dan Barnett e da All Stars Jazz Band. A apresentação foi bem contagiante. Depois se apresentaram a Swing Time e os The Tap Dancers. A pianista Carmichael, que no folheto é chamada de “a rainha do stride” (um estilo de tocar piano com origem no Harlem), é realmente impressionante com suas mãos esvoaçantes pelo teclado e seu excelente humor. Os sapateadores também são notáveis e acho que Natacha vai adorar quando for ver em Aracaju. Na volta, às 10:30, ao irmos tomar o metrô na Cinelândia ficamos um pouco apreensivos quando vimos se formar um “corredor polonês” entre uma banca de revista e a parede de um prédio próximo à rua Araujo Porto Alegre, esquina com a Graça Aranha (veja o mapa). Mais dois casais iam na nossa frente e todos nós desviamos indo pela rua. Segundo dia. A Porteña Jazz Band toca muito bem num estilo muito correto. Mas acho que me cansei um pouco porque nesse dia estava quase no gargarejo. O som dos metais, ali, a queima roupa, era um pouco estressante. Depois veio Irakli e a banda francesa Louis Ambassadors. Os trompetistas eram muito bons e o show do baterista foi estupendo. O nome da banda provém de um tributo a Louis Amstrong. Evitamos o caminho do dia anterior. Mas na volta teve uma discussão na esquina da Graça Aranha com a Almirante Barrtoso com direito a pedradas com calhaus do tamanho de tijolos que foram pegos pelos contendores numa obra próxima. Corremos para outro lado da rua o mais rápido que pudemos para evitar uma “pedra perdida”. Terceiro dia. Duke Ellington Orchestra. Ficamos no balcão. A medida que a orquestra foi evoluindo no repertório com solos e jam-sessions ficou a impressão de que cada integrante era um virtuose. Diferentemente das outras bandas, a maioria era de negros. O estrondoso e entusiasmante som, de uma qualidade impecável, parecia dizer: Espere aí! Nós inventamos isso. A volta, nesse dia, foi tranquila, e pelo metrô também, como nos outros dias. Lembrei de um texto para ilustrar a sensação que é ouvir uma sessão de Jazz de ótima qualidade como aconteceu nesse festival. Está no livro de Botul (Pagè): ‘Nietzsche e o demônio do meio dia’. Lá ele fala de uma implausível sobrevivência de Nietzsche e ida do mesmo para a América:

Imagino-o, também, num clube enfumaçado, descobrindo uma música que ia conquistar o mundo. Não era, decerto, a de Wagner, como ele acreditou em seus jovens anos. Era o Jazz! Ele teria ouvido os primeiros acentos dessa música dionisíaca, uma música de alegria e inocência saltitante, capaz de exprimir “o excesso dourado do mundo”. O que Nietzsche esperava de Wagner para a Europa, o jazz o deu às nações: uma arte da superabundância, da espontaneidade, da alegria incondicional. Aquilo de que Nietzsche gostava tanto em Bizet e em sua “Carmen” — aquela “alegria africana”, como ele diz –, o jazz podia fornecer-lhe abundantemente. Sim, essa música nova podia purgar o homem moderno de seus vapores melancólicos e niilistas, melhor que o jeito pesadão de Wagner. Nietzsche teria enfim dançado. Disso estou seguro, ele teria então preferido uma única Ella Fitzgerald a dez Valquírias!

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