Botul

470a1f7a-66fb-4b97-981b-ecddafa29ed6Voltando hoje na Travessa do Shopping Leblon voltei de novo ao Botul e seu botulismo em Nietzsche e o demônio do meio-dia. Folheando o capítulo sobre o eterno retorno, uma das mais intrigantes idéias de Nietzsche que, embora não seja original, é um dos pontos culminantes de sua obra, deparei com o texto satírico que, apesar disto, expressa de forma esclarecedora o que é:

Por exemplo, O Eterno Retorno…Era o achado que o deixava mais orgulhoso. Era sua coisa. Sua marca na história da humanidade. Aplicou-o em si mesmo? A resposta é não. Olhem-no sofrer.

Suportar a separação, o desamor, fazer o luto de uma bela história, de uma esperança — do gênero “com você não terei mais medo…” –, viver isso uma vez é de morrer. Mas revivê-lo uma segunda vez… Esse gênero de pensamento insustentável é rapidamente afastado com um revés da mão, como se espanta um inseto nocivo.

Mas vivê-lo uma infinidade de vezes? Aí, é o pior dos suplícios que se possa imaginar. Que louco ousaria propor esse pensamento atroz como chave da felicidade, fórmula mágica da filosofia?

Quem?

Nietzsche!

Aqueles que falaram disso antes dele falavam de outra coisa. Os estóicos, por exemplo, pensavam que o Mundo estava submetido a um grande ciclo. Antes deles, Heráclito pensava que, periodicamente, durante o Grande Ano, o mundo se regenerava por uma catástrofe, por um fogo purificador. E já o Eclesiástico escrevia: “Tudo acontece da mesma forma sob o sol.”

Nietzsche diz outra coisa. Ele não afirma que a História do Mundo é um eterno retorno. Não emite um julgamento sobre a realidade, ele fixa um desafio e um programa: devemos fazer como se fosse o caso, como se fôssemos reviver uma infinidade de vezes nossa vida, cada instante de nossa vida, inclusive os mais dolorosos.

Masoquismo? Não, amor pela vida! Ou como ele diz amor fati, amor pelo destino. Nada a ver com fatalismo “maometano”, para falar como Leibniz. O fatalista resigna-se a sofrer o Destino, o nietzschiano ama ativamente a roda do Destino, mesmo quando tira para ele o número errado. Porque é seu número…

Se formos capazes de nos “eterno-retornarmos” — perdoem-me o barbarismo — evitaremos a fuga no devaneio e no ideal. Pois ao sonharmos com uma vida melhor, jogamos-nos na goela das paixões tristes — nostalgia, melancolia, ressentimento, ciúme –, vivemos por procuração, como Emma Bovary, vale dizer que não vivemos. Que cretinismo acreditar que, em outro lugar, com outra pessoa, sob outro céu, num outro regime político, em outra vida, com um nariz mais curto ou mais comprido, seria melhor…! Nietzsche só vê nesses “outros lugares” sintomas de uma grave doença: a incapacidade de aceitar a vida como ela é, isto é, tecida de alegria e sofrimento. Aceitar a vida é aceitar toda a vida.

Comprei o livro.

Veja também o que escrevi num post anterior.

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4 comentários

  1. Oi. Chicoary.
    Acabei de ler o trecho retirado do livro Nietzsche e o Demônio do Meio-dia. Quero apenas te dizer que foi de uma leveza essa leitura, de uma limpeza d’alma. Na verdade, é bom sentir essa sensação de aceitar a vida, procurar viver bem a vida, sorrir sempre com ela. Sinto-me assim. Espero continuar sentindo assim. Abraço.
    Hila

  2. Olá Hila,

    Não sei se você já leu Nietzsche mas um dos temas mais caros, ele que é considerado um filósofo otimista, em contraposição a um Shopenhauer, é dar uma solução existencial que permita superar o nilismo que ele detectou como o Zeitgeist (espírito do tempo) já em sua época quando fez o anúncio da morte de Deus.

  3. […] Salomé, uma russa que enfeitiçou Nietzsche, mas ao mesmo tempo o negaceou e, que segundo o filósofo Botul, era uma allumeuse, era também filiada ao romantismo e lirismo de sua época. Seus textos são […]

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