Botulismo

Outro dia ao visitar o cantinho temático sobre Nietzsche na livraria Travessa no Shoping Leblon me deparei com um título curioso: Nietzsche e o demônio do meio-dia, de Jean-Baptiste Botul. A toxina do botulismo é muito usada atualmente para retesar a testa das madames mas as citações sobre o botulismo, uma corrente inaugurada por Botul, um “escritor da tradição oral”, ao contrário, faziam minha testa franzir aos efeitos das referências um tanto copiosas a respeito de Botul numa supeitosa atitude um tanto inconsciente. Dizem que a mentira é sempre mais elaborada do que a “verdade”. E que a vontade de verdade, que nós faz sempre tentar dar sentido a tudo e principalmente às coisas vertidas no papel, colabora para o engano e o erro. O papel aceita tudo e tudo aceitamos desde que já aceito pelo papel. Talvez com base nessas premissas foi que Frédéric Pagès escreveu sob o heterônimo de Botul o fake citado. O embuste foi bem arquitetado sendo a editora uma casa respeitada na veiculação de obras sérias e o editor garante que, apesar do engano, os fatos contidos no livro são fidedignos. Até algumas resenhas sobre a obra na imprensa foram feitas de forma ingênua sem perceber que Botul nunca existiu. Eu particularmente gostei do livro e já o tinha colocado na minha wish list (e ainda o mantenho lá) antes de pesquisar na Internet e encontrar as evidências da razão da minha desconfiança. Folheando o livro achei que é uma obra de sátira interessante e com considerações pertinentes, na minha opinião, sobre Lou Salomé, a amada de Nietzsche. Botul tem outros títulos e o próprio Pagès já escreveu outra obra satírica sem a máscara do heterônimo.

Veja também KANT E BARRIGAS (Nota: o link anterior está quebrado achei a página no cache do Google).

Para não perder o texto resolvi colocar o conteúdo do cache abaixo:

ARMAZÉM LITERÁRIO

 

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

 

 

ASPAS

KANT E BARRIGAS

 

Paulo Roberto Pires

 

“Comédia da vida privada”, copyright Jornal do Brasil, 9/05/01

“É fato que Emmanuel Kant levou uma vidinha besta: escrevia, comia, dormia, meditava e caminhava todos os dias em Königsberg, cidadezinha onde nasceu, viveu e morreu. É possível que a ausência de sexo tenha influenciado de alguma forma sua obra. É ainda aceitável que um filósofo francês obscuro (e eles existem aos montes) chamado Jean-Baptiste Botul tenha investigado a vida sexual do autor da Crítica da razão pura nas conferências publicadas agora pela Unesp em A vida sexual de Emmanuel Kant. Mas o que dizer quando se é informado que estas conferências foram proferidas no Paraguai, em 1946, em Nueva Königsberg, vilarejo também obscuro onde ‘alemães se vestiam com Kant, comiam, dormiam como ele, e faziam a cada tarde o mesmo passeio lendário num cenário reconstituído que evocava as ruas de Königsberg’?

A Veja do último fim de semana achou a história perfeitamente normal e verossímil. O Le Monde Diplomatique, também. Afinal, Botul teve uma vida venturosa: conheceu Baden-Powell; teve um affair com a princesa Marie Bonaparte, patrocinadora de Freud na França; manteve uma correspondência amorosa com Lou Andréas-Salomé quando ela tinha 69 anos; conheceu Zapata e Pancho Villa no México. As informações estão na cronologia, de responsabilidade do editor e tradutor do texto, o jornalista e escritor francês Frédéric Pagès, colaborador de no. que é um tradicional investigador da vida privada de filósofos: em ‘Descartes e a maconha’ (Pazulin, 1999) ele mostrava como o autor que também é símbolo da razão costumava fumar unzinho em Amsterdã para se inspirar.

‘Estes textos do Botul foram descobertos agora’, despista Pagès, às gargalhadas, falando por telefone de sua casa em Paris. ‘O botulismo foi prejudicado porque se confunde com a doença de mesmo nome que você pode pegar e morrer se comer, por exemplo, um enlatado com a validade vencida. Mas o ensino acadêmico às vezes é assim, está estragado e é muito perigoso’.

As informações não batem nem no próprio livro. Botul teria morrido em 1947, aos 49 anos. Mas, segundo a cronologia de Pagès publicada no final da edição francesa, a morte teria sido aos 47 anos, em 1945 – ano em que teriam sido proferidas as conferências na hilária Nueva Königsberg. A cidade estaria fadada a desaparecer pela mais pura lógica: se seus moradores são convictos neokantianos, eles jamais se reproduzirão, pois levariam a vida dedicada à casta contemplação no Paraguai, país que abrigou diversos exilados alemães no fim da Segunda Guerra Mundial – em sua maioria nazistas e não kantianos.

Com solenidade, Botul declara: ‘a vida sexual de Kant é uma das mais graves questões da metafísica ocidental’. E desenvolve sua tese baseado em indicações mais ou menos precisas dos escritos do filósofo. Uma estratégia parecida com a de Descartes e a maconha, em que os dados factuais partem de uma leitura atenta – e galhofeira – da correspondência e das obras do autor de O discurso do método.

A idéia diabólica de maquiar mentiras como verdades jornalísticas e acadêmicas já é um filão de diversas formas. Joey Skaggs, artista plástico de formação, faz isso desde os anos 70 e cada vez com maior sofisticação: já enganou a grande imprensa americana e provocou barrigas em todo o mundo (inclusive na Rede Globo).

Há inclusive quem faça disso uma forma de aparecer: Alan Sokal e Jean Bricmont eram obscuros professores de física até submeterem à prestigiada revista acadêmica Lingua Franca um texto fake que foi aceito e publicado como uma séria meditação acadêmica. Depois, ambos denunciaram o fato no escandaloso Imposturas intelectuais (Record) e aproveitaram para descascar todo o establishment acadêmico francês.

Mas a universidade americana também sofre por seu linguajar por vezes incompreensível. Um divertidíssimo Gerador de Textos Pós-Modernos produz a cada reload um ensaio perfeitamente coerente, significando nada. Obscuridade lacaniana e socialismo, Desconstruindo Bataille: leitura derridiana, objetivismo e construtivismo e Teoria subdialética e discurso capitalista foram três textos que consegui produzir seguidos. É melhor andar rápido, antes que alguém publique suas resenhas.”

Haroldo Ceravolo Sereza

 

“As razões sexuais das pegadinhas intelectuais”, copyright O Estado de S. Paulo, 13/05/01

“Quando se abre um livro de um escritor conhecido e fotografado, tem-se como certo o fato de o autor existir. Apesar dessa existência concreta, a obra não necessariamente expressa uma verdade. Mas o que dizer do texto de um autor imaginário?

Há uma pegadinha filosófica nova no mercado editorial. Trata-se do livro A Vida Sexual de Immanuel Kant (Editora da Unesp, 79 págs., R$ 7), de autoria de um filósofo francês chamado Jean-Baptiste Botul. Segundo o sisudo jornal Le Monde Diplomatique, Botul (1896-1945?) é um filósofo de tradição oral, ordenança de André Malraux e próximo de Jean Cocteau. A revista brasileira Veja dedicou ao livro, na semana passada, uma resenha que o descrevia com perfil semelhante. A existência de Botul poderia ser, então, assim resumida?

Não. E sim. Não porque Botul – suposto criador do botulismo, uma corrente filosófica que sofreria do mal de ser constantemente confundida com a doença causada por uma bactéria – é uma criação literária francesa, de um grupo de intelectuais dispostos a brincar com questões filosóficas. E sim pelo mesmo motivo. Uma sociedade de admiradores de Botul mantém um site na Internet sobre ele, com um telefone verdadeiro, que atende a quem os procura como se de fato ele houvesse deixado uma obra considerável.

‘Botul nasceu da vontade de falar certas coisas por meio de um personagem que fosse uma espécie de filósofo padrão dos anos 30 e 40’, disse em bom português ao Estado Frédéric Pagès, francês autor da apresentação do livro, a publicação de um ciclo de conferências que teriam sido proferidas por Botul há 56 anos em Nueva Könisberg, cidade fictícia paraguaia formada por admiradores de Kant que se comportavam e se vestiam como ele. O problema é que Pagès só reconhece isso agora, depois que a revista eletrônica No. (www.no.com.br), para a qual colabora, revelou a brincadeira.

‘Botul escreveu uma série de obras, a maioria delas inéditas’, continua ele, voltando à piada. ‘Na verdade, acho que essa é a primeira obra sua publicada.’ Pagès não confirma a aparente autoria do ensaio, que defende a tese de que a teoria kantiana deve muito à sua vida conhecidamente casta.

Segundo Botul, a obra do filósofo prussiano leva à conclusão de que ‘é necessária, portanto, uma raça especial de solteiros e de indivíduos castos que decidem não procriar, recusar as alegrias duvidosas do casamento e consagrar-se à transmissão dos conhecimentos, quer dizer, à cultura’.

Fazer pegadinha com a vida intelectual não é exatamente uma novidade. O caso recente mais famoso é o do físico Alan Sokal, que escreveu um artigo falso pós-moderno e submeteu-o a uma revista especializada, que o publicou. Todo o dia 1.º de abril, as principais agências de notícia do mundo costumam distribuir uma história falsa, mas verossímil, que acaba publicada em jornais incautos de todo o globo.

Na Editora da Unesp, não se sabia da brincadeira, e o livro passou pelo parecer de um professor universitário sugerido pela Fapesp. Na França, foi publicado numa coleção respeitada, que inclui textos do próprio Kant, pela Fayard, que o vendeu ao Brasil como uma obra de um autor normal, não como uma paródia.

‘Permanece sendo um livro informativo; se a interpretação é risível, na minha opinião, os dados sobre Kant, na quase totalidade das vezes, são acurados’, afirma Jézio Gutierre, assessor-editorial da Unesp, doutorado em filosofia – com uma tese que tem Kant como objeto. ‘De fato, o caso nos constrange, não é esse o perfil dos livros que publicamos; mas vamos manter nossos procedimentos de avaliação: não podemos fazer nada além do que já fazemos.’ A Unesp pede, agora, explicações à Fayard.

‘Tenho certo papel nisso tudo’, diz Pagès, que integra o grupo de criadores-cultuadores do filósofo-pegadinha Botul. Definindo seu perfil intelectual, Pagès afirma que o francês inventado gosta de se debruçar sobre grandes paradoxos, a última coisa que viria à mente – como é o caso da vida sexual de Kant. ‘A piada, às vezes, revela coisas mais profundas do que o discurso sério’, afirma Pagès, colaborador de um jornal satírico francês e autor confesso do livro Descartes e a Maconha (Pazulin, 64 págs., R$ 8), publicado no Brasil, outra ficção filosoficamente engraçadinha.

Revelada a farsa-piada, o que resta de A Vida Sexual de Immanuel Kant? Uma brincadeira que revela os limites que existem para a checagem das informações e o excesso de confiança depositado na palavra escrita capaz de montar um sistema de idéias razoavelmente coerente. Comprova ainda que autores falsos podem dizer coisas verdadeiras, por mais paradoxal que isso pareça.

O grande problema do livro, no entanto, é que ele apenas dá pistas sobre as razões que levam jornalistas e intelectuais a se comportarem como o velho Sérgio Mallandro. Definitivamente, é urgente que se investigue a vida sexual de Frédéric Pagès.”

Joana Monteleone

 

“A mais pura cascata”, copyright Época, 14/05/01

“O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) costumava seguir uma rotina monástica. Dizem que o relógio de Königsberg (atual Kaliningrado, na Rússia) era acertado por suas passagens pontualíssimas. Por décadas a fio, discussões sobre a monotonia da existência de Kant vêm distraindo escritores e acadêmicos. O jornalista francês Frédéric Pagès retomou a tradição para inventar um personagem também disposto a discutir a intimidade do filósofo. Jean-Baptiste Botul é o nome da figura. Ele aparece como autor na capa do livro A Vida Sexual de Immanuel Kant, lançado no Brasil pela editora Unesp. Ou seja, a obra é uma brincadeira literária escrita por Pagès.

‘Muitas vezes uma piada pode esconder questões mais sérias’, diz o criador Pagès. ‘É o caso de Botul’ – a criatura. O jornalista está se referindo ao culto exagerado que o meio universitário tem por intelectuais, mesmo os inventados. Pagès quis denunciar essa idolatria. Não imaginou que alguns veículos da imprensa, como o jornal francês Le Monde Diplomatique e a revista Veja, cairiam no conto do escritor imaginário e publicariam sisudas resenhas como se Botul fosse de carne e osso e suas teses devessem ser levadas a sério.

‘É uma invenção muito bem construída’, diz Jézio Gutierre, editor da Unesp, responsável pela publicação do livro no Brasil. ‘Muitos fatos relacionados à vida de Kant estão corretos. A piada está na interpretação feita por Botul, o autor fictício.’ Gutierre, doutor em Kant, garante ter editado o livro com o mesmo espírito brincalhão que levou Pagès a escrevê-lo. Para um leitor medianamente informado, não é difícil identificar as fronteiras da galhofa. Botul teria feito conferências sobre o filósofo numa cidade paraguaia chamada Nueva Königsberg, abrigo de uma colônia de alemães que imitavam os usos e costumes de Kant, incluindo o modo de vestir-se. A trajetória do fantástico Botul ora o mostra no México, em confabulações com os revolucionários Emiliano Zapata e Pancho Villa, ora como ordenança de André Malraux durante a Resistência Francesa. Nenhum desses sinais de alerta evitou a gafe jornalística. Antes de produzir esse engodo, Pagès escreveu Descartes e a Maconha, ficção bem-humorada sobre outro filósofo.

O caso ‘boimate

 

Em abril de 1983, Veja publicou reportagem inspirada num texto da revista inglesa New Scientist sobre a descoberta da fusão entre células vegetais e animais, que chamou de ‘boimate’. ‘A experiência (…) permite sonhar com um tomateiro do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate’, comemorou Veja. Fora uma brincadeira de 1º de abril da New Scientist. O ‘boimate’ transformou-se num clássico das trapalhadas jornalísticas.”

Veja

 

Kant“, copyright Veja, 14/05/01

“A Vida Sexual de Immanuel Kant é um bom livro: embora apresentando uma interpretação filosófica no mínimo bizarra, é informativo, irônico e divertido, pois trata de maneira curiosa um tema normalmente árido. Foram esses os principais motivos que levaram a Editora Unesp a publicá-lo e que ainda nos permitem atestar sua qualidade. Quanto à origem do texto, conforme as notícias que nos chegam, o autor da obra seria o senhor Pagès e não J.B. Botul, um personagem criado pelo senhor Pagès. Só nos cabe lamentar que tenhamos involuntariamente veiculado um livro sob autoria incorreta, livro que, na França, foi também publicado como sendo de Botul pela insuspeita Editora Fayard, em coleção que inclui títulos clássicos do próprio Kant. Jézio H.B. Gutierre, Assessor editorial da Editora Unesp, São Paulo, SP

Nota de Veja:

JEAN-BAPTISTE FRÉDÉRIC BOTUL PAGÈS

Na resenha ‘Desrazão pura’ (9 de maio), VEJA comentou o livro A Vida Sexual de Immanuel Kant (Editora Unesp) e atribuiu sua autoria ao intelectual francês Jean-Baptiste Botul. Essa informação, contudo, não procede, pois Jean-Baptiste Botul nunca existiu. Segundo a editora francesa Fayard, responsável pelo lançamento original do livro, ele é um heterônimo do jornalista francês Frédéric Pagès, autor do texto. Desde 1995, Pagès alimenta o mito em torno do intelectual nascido de sua imaginação. Mantém um site na internet sobre ele e fundou, em Paris, uma Associação dos Amigos de Botul (na qual preenche todos os cargos de direção). Como local de nascimento do personagem, escolheu o vilarejo de Lairière, nos Pireneus, que possui apenas 37 habitantes e onde um colega de Pagès se encarrega de prestar esclarecimentos aos curiosos, dizendo morar ‘na mesma casa onde outrora viveu Botul’. Os jornais franceses Le Monde e Le Monde Diplomatique publicaram artigos sobre A Vida Sexual de Immanuel Kant. No Brasil, a Unesp lançou a obra com a recomendação de dois especialistas na filosofia de Kant, mas sem mencionar o truque da autoria. Em carta enviada a VEJA, na semana passada, a editora registrou sua posição sobre a qualidade do livro. Excetuada a confusão em torno de Botul-Pagès, A Vida Sexual de Immanuel Kant traz, de fato, inúmeras informações verídicas e divertidas a respeito da vida do filósofo. O trabalho foi avaliado pela revista como ‘curioso’ e ‘impagável’. VEJA não entrou no mérito das interpretações de Botul-Pagès. Os dados e as anedotas citados na resenha podem ser conferidos em obras do próprio Kant, como Metafísica dos Costumes e Reflexões sobre a Educação, em sua correspondência, em biografias como Kant Intime, que reúne reminiscências de três contemporâneos do pensador, e ainda no texto Os Últimos Dias de Immanuel Kant, clássico do escritor inglês Thomas De Quincey. A leitura de tais obras, feita diligentemente pelo resenhista de VEJA, teria poupado a imprensa amadora brasileira dos comentários tolinhos que andou publicando a respeito.”

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