Eleições e democracia

Porque não gosto de eleições é um texto interessante para ser relido nestes tempos de politicagem furiosa. Nele fica claro o engôdo de confundir o direito de votar com democracia, com o direito de participar dos destinos e decisões. A democracia representativa, inescapável por razões logísticas, já que não é possível a democracia direta das comunas e cantões suiços, é solo fértil para as intermediações inescrupulosas.

Primeiro o “eleitor” é comprado de forma direta e indiretamente. Quando é pobre recebe telhas para concluir o seu barraco. Quando é empregado no governo vota naquele que não vai abalar o seu “status quo” empregatício. Quando é um pequeno empresário ou autônomo vota naquele que promete melhorar os seus lucros com isenção ou redução de impostos. Num nível aparentemente mais elevado os rumos da política econômica interessam àqueles que tem mais capital, os grandes empresários, que agem e influenciam de forma estratégica. Estes são os verdadeiros eleitores e, em vez de se venderem, compram os políticos com financiamento de campanhas cujo dinheiro vai para os desvios e bolsos dos corruptos e, principalmente, para a compra dos votos e consciência dos “eleitores”.

E, podem perguntar, existe uma forma melhor? E invariavelmente saca-se o pragmatismo barato de que outras alternativas seriam piores. Ninguém nega que a idéia de democracia é inestimável. O problema é que a palavra está desgastada o que é atestado pelos adjetivos que necessariamente a tem acompanhado à esquerda e à direita. Democracia “verdadeira”, democracia direta, democracia indireta ou representativa, democracia popular (uma redundância?), democracia burguesa, etc. A falta de controle e a dificultação dos mecanismos de participação tornam uma falácia um governo, dito democrático, mas que é uma farsesca autocracia.

Mesmo quando a “esquerda”, com suas propostas historicamente alinhadas com uma democracia mais participativa e não outorgada pelo poder econômico, só é guindada ao poder quando faz várias concessões e tais que suas ações mais autênticas e coerentes com seus princípios viram pó diante da avalanche de medidas e princípios vindos de inspiração contrária a tudo que ela sempre foi. Na época de conquistar o poder abdica do conteúdo em favor da embalagem marqueteira. Com isso espera-se que “as boas intenções”, embora soterradas pelos discursos eleitoreiros e de fachada, sobrevivam depois. Mas o postulado anti-metafísico, de que aparência e essência deviam ter o mesmo nome e status faz, sim, sobreviver o paradoxo.

José Saramago, no artigo O que é, afinal, a democracia?, discorre de forma clara sobre o assunto quando escreve:

“O direito de voto, por exemplo, expressão de uma vontade política, também é um ato de renúncia a essa mesma vontade, pois o eleitor a delega a um candidato. O ato de votar, pelo menos para uma parcela da população, é uma forma de renúncia temporária à ação política pessoal, discretamente adiada até as eleições seguintes, quando os mecanismos de delegação de poder voltarão ao ponto de partida para tudo recomeçar de novo.”

Em A justiça, a democracia e os sinos ele escreve:

“E contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica”

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