O vírus da mente

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O vírus

O vírus da mente é um texto de Richard Dawkins que encontrei em ‘O capelão do Diabo’ e que me impressionou bem porque aponta em uma direção explicativa interessante para uma indagação que há algum tempo me persegue. Por que contra todo o bom senso as idéias mágicas a respeito da realidade triunfam ou estão sempre voltando a consumir as energias num combate aparentemente sem sentido? Uma tentação ou desfalecimento do racional leva a pensar que há necessidade de conceder o benefício da dúvida a tais idéias já que se elas aparecem e são reforçadas algo deve haver alí. Lendo o texto citado a resposta começa a se esboçar a respeito do processo, pelo menos: na verdade há um esforço contínuo, uma azáfama permanente e persistente daqueles que tem interesses a zelar baseados em um mundo mágico. As idéias replicantes. Os memes. Elas são implantadas desde cedo. Como um vírus.

O RNA

Ah, os memes! Confesso qua ao ler ‘O Gene Egoísta’ fiquei um pouco espantado com a teoria dos memes que havia lá. Fiquei com uma impressão parecida quando li ‘A sociedade aberta e seus inimígos’ após gostar muito de ‘A lógica da investigação científica’, também de Karl Popper. A impressão foi de que pensadores eficazes em certas áreas específicas geralmente ‘viajam na maionese’ quando extrapolam para outros campos de investigação o seu saber particular numa generalização muitas vezes temerária. A teoria dos memes parecia uma tentativa fora de contexto de extrapolar a evolução e a genética para o mundo das idéias. Uma espécie platonismo revivido e que eu achava incompatível com o resto do texto de Dawkins. Em ‘O capelão do Diabo’ Dawkins esclarece um pouco o que representava para ele o assunto sobre os memes e como houve má interpretação a respeito. O interessante é que a idéia dos memes se ‘replicou’ e há muitos textos a respeito na Internet mesmo. Os memes parecem que tomaram vida própria e como que confirmaram a ‘teoria’ a respeito de si mesmos replicando o próprio termo ‘meme’ que é a base de tudo. Uma espécie de ‘bootstrap’.

A infecção

Desde criança Nietzsche desconfiava de alguns conceitos que lhe eram incutidos. No início por instinto. Um instinto que sinalizava já que aquilo não era bom para a vida. Depois com uma convicção mais embasada. A sua obra parece clamar que de todos os embates importantes um dos maiores é da superação do misticismo religioso. Dawkins fala da tolerância imposta, e até mesmo auto-imposta, para todo o discurso religioso, por mais maluco que seja, por mais similar a demência que seja e que não é reconhecido como tal por causa da tolerância reservada para tais falantes ou pensadores. Este privilégio dado a tais sujeitos é implantado como um vírus desde cedo e a desinfecção é prolongada e as vezes literalmente impossível. Uma imunodeficiência é o que é implantado. O vírus da AIDS já tinha sido inventado há muito tempo. Um vírus genial, se é que um vírus pode ser um gênio antropomórfico, que ataca e destroi a capacidade de ser combatido. Que transforma os balaços do sistema imunológico em festim.

“A religião tem todas as coisas a seu favor: a revelação feita por Deus aos homens, as profecias, a proteção do governo, das figuras mais respeitáveis e importantes. Mais que isso, o enorme prestigio de poder gravar a sua doutrina na mente das pessoas quando elas são crianças e, com isso, as idéias se tornam quase congênitas.”

afirmava Shopenhauer.

Dawkins, em ‘O capelão do Diabo’, incita os próceres da religião a abandonarem o hábito de se imiscuir nas áreas de que trata a ciência. Que se atenham ao domínio metafísico e moral em que não podem ser contestados ou corroborados. Que não falem ou dêem testemunho de milagres que não podem ser verificados. Abstendo-se de tais práticas do pensamento religioso popularesco não terão mais que se preocupar com a ciência e seu critério de realidade baseado em métodos eficazes em detectar o que é relevante no mundo. O que funciona e o que é ilusão.

Quando Luzilá Gonçalves Ferreira, em seu ‘Humana, demasiado humana’, cita Lou Andreas-Salomé dizendo:

“A exuberância dos amantes, com suas causas fisiológicas, projeta, de algum modo, antecipando sobre sua completa experiência vivida pelo espírito, as imagens que gera: bizarras, engraçadas, comoventes, edificantes, jogo de reflexos confuso e passageiro – enquanto o devoto, querendo dar formas a uma experiência extrema do espírito, se vê obrigado a apelar para o que é menos espiritualizaddo, e só apreende o passado desaparecido para sempre: na verdade um mundo maciço, de granito, projetado pela imensa vitalidade de incitações internas em uma matéria mortalmante petrificada! E por esta razão mesmo, um asilo permanente para o uso dos que, presos às atribulações da existência, buscam abrigo e proteção. Pois é verdade que toda religião conserva estas duas características: ser uma coisa para o ardor daquele que a vive e outra para a miséria daquele que nela crê, e uma coisa quando é asa e outra coisa quando serve de muleta.”

nada mais faz que revelar o caráter envolvente das idéias religiosas assim como o amor dos amantes, no início, e da dualidade dos usos da religião, no fim.

Os sintomas

Mas não se pode esquecer, apesar de tudo o que possa haver de positivo na religião sob alguns pontos de vista, que a civilização Judáico-Islâmico-Cristã, inimiga da vida aqui e agora, é a arquiteta do 11 de setembro em Nova York (onde a vida foi mais desvalorizada!?). O antagonismo ocidente-oriente (médio), Islã versus Cristãos, é um falso dilema. A religião é a postergadora da grandeza do homem como feitor do seu destino e responsável por ele para um lugar além da vida. Para uma fantasmagórica vida futura renegadora do presente. Que a religião seja o “religare”, o conectar-se cada vez mais ao mundo, como coloca Rubem Alves. Que ela desapareça como fenômeno social de imposição dogmática e de lavagem cerebral. Que desapareça com sua negação do corpo, veículo da própria vida a que a religião nega o valor intrínseco e insubordinado. “Que tudo vem do corpo” como dizia Nietzsche. Que não existem arroubos filosóficos pairando nas alturas sem contato com o corpo, que é a própria afirmação da vida. Que o espírito e o corpo não mereciam ter nomes distintos. Que a religião desapareça como confissão coletiva, que se torne, como já vem se tornando, assunto íntimo e individual manifestado cada vez mais nessa forma por muitos que rezam sozinhos e dirigem-se diretamente à entidade em quem esperam se socorrer. Sem intermediários terrestres com o divino. Até que a oração seja dirigida a quem realmente escuta, isto é, a si mesmo. Até que se torne irrelevante por desnecessária e sem nenhum papel a desempenhar. Porque o homem se tornou pleno em sua dor e alegria. Mais uno nisso do que toda a unidade celestial incutida por séculos. Deixe a ilusão do ser em favor do devir. Abandone a veneração da gramática, engendradora da idéia do ser, que coloca o sujeito no início da ação, e que extrapola o conceito no sujeito de tudo e de toda ação desde o princípio e sempre, que separa criação e criatura, que separa o sujeito da ação. Que não existe teleologia aplicável à vida. Que a vida não tem sentido e que não se dirige para lugar algum, mas que tem valor.

Desinfecção

Uma mudança já está ocorrendo há muito em vários aspectos da religiosidade. O laicismo já é frequente mesmo entre os que se declaram ‘religiosos’ que apelam cada vez mais para uma integração com uma realidade superior dada pela própria natureza. O aspecto social de grupo gregário da religião é cada vez mais desprezado e há um afastamento das igrejas que revelam claramente o seu caráter secular e explorador das crendices. É do interesse dos arautos da fé manter as massas ignorantes para facilitar a implantação do vírus, mas gradativamente a imunidade parece estar vindo.

Diferentemente da crítica de Dawkins, a crítica de Nietzsche é mais fundamental do que o antagonismo entre a religião e a ciência com base no método científico. Dawkins mesmo ainda reserva algum papel para a religião desde que fora do espaço que é reservado para a ciência e o método científico. Nietzsche combate a religião, com seu pessimismo com esperança, contrapondo um otimismo sem esperança, esta que é o último mal restante na caixa de Pandora. A abordagem de Dawkins, com seu critério de verdade baseado na ciência, é diferente da de Nietzsche com sua visão sobre a religião como negadora da vida.

Os religiosos falam como se sua visão fosse universal. Os que não compartilham devem fazer a mesma coisa. Devem evitar a retração e afirmar tranquilamente o seu ponto de vista sobre a vida e o misticísmo. Essa é uma forma de alertar para os outros que existe outra perspectiva e que as pessoas que a professam devem ser respeitadas por mais que suas idéias nos pareçam erradas ou inconvenientes. Existe uma via de mão dupla aqui. As pessoas devem ser respeitadas mesmo que suas idéias não grangeiem o mesmo status das idéias padronizadas e “obrigatórias”. Nietzsche fala dos grandes homens que fazem concessões, embora tenham outras preferências espirituais, e assim reforçam o ponto de vista dos crentes e dos propagandistas da fé:

Pequenas ações divergentes são necessárias! — Em matéria de costumes, agir ocasionalmente contra o que achamos melhor; ceder na prática, reservando-se a liberdade espiritual; fazer como todos, assim demonstrando favor e gentileza a todos, como que em compensação pela divergência de nossas opiniões: — para muitos homens de espírito razoavelmente livre, isso é não apenas irrepreensível, mas “honesto”, “humano”, “tolerante”, “nada pedante”, ou qualquer outra das belas palavras com que se pões para dormir a consciência intelectual: assim, este leva o filho para o batismo cristão, sendo ateu, e aquele faz o serviço militar como todos, embora amaldiçoe o ódio entra as nações, e um terceiro comparece à igreja com uma mulher, porque a família desta é devota, e presta juramento ante um padre sem se envergonhar: “Não é essencial que um de nós também faça o que todos fazem e sempre fizeram.” É o que diz o tosco preconceito. O tosco erro! Pois nada é mais essencial do que algo já poderoso, tradicional, irracionalmente reconhecido, ser confirmado pela ação de alguém reconhecidamente racional: assim obtém, aos olhos de todos os que têm notícia do fato, a sanção da própria razão! Todo o respeito por suas opiniões! Mas pequenas ações divergentes têm mais valor!

As manifestações públicas dos crentes em orações coletivas e outras nem são percebidas como constrangimento para aqueles que não desejam participar. Há uma imposição sutil, velada e algumas vezes quase ostensiva pela participação, mesmo que forçada. O espetáculo coletivo é o que importa para exibir uma hegemonia e para fins de propaganda. O constrangimento se espraia pelos ateus, agnósticos e aqueles que não professam a mesma fé que no momento estiver sendo objeto de manifestação ou não professam fé nenhuma.

Observa-se atualmente uma nova militância que está surgindo entre os céticos e que em alguns casos se parece um pouco como ativismo do campo oposto. E por que não? Vários sites do céticos tais como Terra Redonda, etc estão ativamente expondo as mazelas, falácias e imposturas (Veja no final do post links para vários sites sobre ceticismo).

O último embate parece não será entre esquerda x direita, Islã x ocidente, mas pela extinção da religião ou pelo menos do seu status de explicadora de tudo com seus dogmas e outros artifícios.

“4. Darei formulação a um princípio. Todo naturalismo na moral, ou seja, toda moral sadia, é dominado por um instinto da vida — algum mandamento da vida é preenchido por determinado cânon de “deves”, algum impedimento e hostilidade no caminho da vida é assim afastado. A moral antintural, ou seja, quase toda moral até hoje ensinada, venerada e pregada, volta-se, pelo contrário, justamente contra os instintos da vida — é uma condenação, ora secreta, ora ruidosa e insolente, desses instintos. Quando diz que “Deus vê nos corações”, ela diz Não aos mais baixos e mais elevados desejos da vida, e toma Deus como inimigo da vida… O santo no qual Deus se compraz é o castrado ideal… A vida acaba onde o “Reino de Deus” começa…”

Nietzsche, V – Moral como Antinatureza, em Crepúsculo do Ídolos

Veja abaixo uma lista de sites em português onde o ceticismo é tratado em artigos ou comunidades:

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