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A cerimônia de colação de grau de Natacha (Licenciatura em Biologia) será hoje à noite. Vou ter que discursar como representante dos pais.

À noite pronunciei enfim o discurso. Infelizmente a emoção embargou a minha voz em boa parte dele prejudicando a clareza da dicção. Mas não faz mal, a emoção também faz parte do contexto. Provavelmente deve precisar de uma revisão já que foi feito em cima da hora (ontem) mas vou colocar como foi lido. Adiante, segue o discurso:

Aos pais, professores, alunos e demais presentes.

Fazer um discurso e não ser enfadonho sendo ao mesmo tempo original é uma tarefa de proporções além da minha capacidade, penso eu. Farei uma modesta tentativa e espero que sejam pacientes comigo.

Como estou aqui representando os pais dos alunos que ora colam grau em Biologia devo agradecer a confiança depositada em mim para a execução dessa tarefa. Agradecimentos também merecem os alunos, filhos dos pais que represento, pela resposta que deram aos anseios de seus pais em proporcionar uma plataforma educacional e profissional que possa não só sustentá-los em suas vidas como dar satisfação em seu exercício.

Quanto ao escopo da profissão que estão abraçando tenho a dizer, partindo da minha ignorância de leigo, que tenho notícias de que sua importância será cada vez maior diante da necessidade crescente por soluções nas áreas de saúde e ambiental bem como para uma compreensão mais abrangente e precisa das necessidades do planeta nos níveis macro e micro. A evolução das espécies e o destino da biosfera estão cada vez mais dependentes das decisões bem informadas e da consciência política em torno das necessidades e ações corretas. O nosso planeta já foi comparado a uma nave singrando o espaço e que no caso de sua destruição não há nada para substituí-la. Já foi comparado também a um gigantesco organismo (A Hipótese Gaia) do qual somos apenas partes, como são os microrganismos que compõem uma medusa dos mares. Nesse último caso a comparação procura demonstrar que as partes devem cooperar para o bom funcionamento do todo. No anterior que não podemos agir como um habitante do Tártaro que devorava a si mesmo na ilusão de que isso representava a sobrevivência. Pois a Biologia, como disciplina científica, requer também uma perspectiva ética que vai além das necessidades humanas e que abrange uma responsabilidade universal, e se está condenado a não poder abrir mão dessa, como não se pode abster de respirar. A evolução darwiniana dá muito bem conta de explicar o ambiente natural sem uma intervenção maciça do homem, que apesar de também ser um elemento natural adquiriu meios e poder muito além do jamais “sonhado” por qualquer criatura que já existiu na face da terra. Estamos condenados a tomar conta do ambiente embora não estejamos preparados o suficiente ainda. O reconhecimento disso, muito além de ser apenas uma postura de humildade diante da complexidade da tarefa, deve servir de norteamento para a seriedade com que deve ser assumida. Já se disse que a Política é uma coisa muito séria para ser deixada somente nas mãos dos políticos. Acho que existem mais coisas ainda que não podem ser deixadas ao sabor dos interesses de uma baixa política. Mesmo o cientista deve assumir a dimensão política de sua ciência cujo conhecimento não deve ser colocado simplesmente a serviço de farsas instrumentadas para fins imediatistas mas suicidas em longo prazo.

Quero dizer também, para finalizar, que penso que ninguém nasceu predestinado para nenhuma profissão pela simples razão que cada profissão é um arranjo artificial definido pela cultura vigente e que não faz parte de nenhuma propensão biológica que possamos ter nascido com ela. É uma escolha que pode ser abraçada com paixão ou indiferença. Mas que com certeza é melhor fazer o que gosta no momento, e isso pode mudar, e se o gosto mudar devemos seguir e estender as velas do “nosso barco” aos novos ventos e prosseguir sem olhar para trás. Que em relação à vida é melhor professar o “amor fati”, amar o destino sem guardar ressentimentos pelo que passou e nem ter medo do que possa vir. O homem deve antes ser uma ponte para o futuro, o seu próprio futuro construído com base na confiança na capacidade própria de resolver a vida e vivê-la o mais plenamente que for possível.

Gostaria agora de pedir novamente paciência de vocês para uma citação do filósofo Gibran Khalil Gibran, no seu livro O Profeta, que talvez expresse com palavras poéticas, além de sábias, o que são os filhos e o que são os pais:

Vossos filhos não são vossos filhos
São os filhos e as filhas do chamado da vida para si própria
Vêm por vosso intermédio, não de vós
E ainda que convosco estejam, não vos pertencem
Podeis dar-lhes amor, mas nunca vossos pensamentos
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abraçar seus corpos, mas não suas almas
Porque suas almas habitam a mansão do amanhã
A qual não podeis visitar, nem em vossos sonhos.
Podeis esforçar-vos por ser como eles
Mas não tenteis fazê-los como vós
Pois a vida não caminha para trás e nem se detém no ontem
“Sois os arcos”, por meio dos quais vossos filhos
Quais flechas vivas, são projetados.
O Arqueiro enxerga o alvo no caminho do infinito
E empresta-vos Sua força para que suas flechas
possam voar rapidamente e à distância.
Que vossa tensão, pela mão do Arqueiro, seja para a felicidade;
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
Ama o arco que está estável.

Que vocês, nossos filhos “flechas”, sejam felizes, é o que desejamos nós, seus pais e mães “arcos”.

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