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Os sonhos da razão técnica

Maio 1, 2008 · Não Há Comentários

El sueno de la razon produce monstruos - Francisco Goya

Escrevi este post durante o ciclo de palestras no Maison de France. Ficou esquecido entre os rascunhos do blog até agora.

Em 3/9/2007 fui à palestra de Jean-Pierre Dupuy com o título acima. O título me fez também lembrar do título de um livro de Davis Philip: ‘O sonho de Descartes’. Nele Philip fala do sonho da matematização do mundo. Um sonho também Pitagórico. Os computadores são um exemplo dessa matematização do mundo.

Dupuy citou também a frase ‘It from Bit’, de John Archibald Wheeler. Tudo é informação. O sonho do teletransporte está em marcha. Afinal o DNA é só informação. Basta transmitir e reconstruir. Os sonhos de potência também me lembram o livro de Deustch (pt), ‘A essência da Realidade’, onde, num aparente devaneio, a teoria de tudo, o sonho da unificação da teoria do mundo, a viagem no tempo, a realidade artificial, a computação quântica, multiversos, e mais, formam um caleidoscópio impressionante e um pouco fantasmagórico. Dupuy fala de uma biologia sintética. Os arautos dessa biologia alegam que ela pode ter como ponto de partida a matéria inanimada.

Tudo isso parece agastar Dupuy que citou a frase ambígua ”El sueno de la razon produce monstruos”, de Goya, como uma forma de chamar a atenção sobre uma suposta arrogância dos cientistas e dos perigos aí inclusos. Realçou que ’sueno’ pode ser ’sonho’ ou ’sono’, quando traduzido. O sonho da razão produz monstros por causa de sua ambição desmedida e sem freios em face das conseqüências. O sono da razão produz monstros pela falta de consciência diante do que está em jogo.

Falou da convergência NBIC (Nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciência cognitiva) que é a causa da necessidade do debate ‘nanoético’ no ponto de vista de Dupuy. Dupuy brincou que não seria uma ética nanica. Como sua palestra ficou truncada resolvi ler também um artigo dele na Web: OS DESAFIOS ÉTICOS DAS NANOTECNOLOGIAS (Veja link no final do post), onde poderia colher mais informações sobre o assunto da ética e suas posições a respeito. Descobri que este artigo, uma tradução para o português na Revista InterfacEHS, publicado originalmente no Le Cahiers du MURS, em 2006, é bem parecido em seu conteúdo com a palestra que assisti. Assim pude recuperar algumas informações perdidas pelo truncamento da palestra. Cito abaixo alguns trechos do artigo que achei mais relevantes para minha exposição:

A etapa seguinte consiste, evidentemente, em perguntar se o espírito não poderia substituir a natureza para completar, mais eficaz e inteligentemente, sua obra criadora. Broderick interroga de modo retórico: “Não podemos pensar que os nanossistemas concebidos pelo espírito humano colocarão em curto-circuito toda errática darwiniana para se precipitarem de modo correto em direção ao sucesso do modelo fabricado?”

_Em uma perspectiva de estudos culturais comparados, é fascinante ver a ciência americana, que teve que entrar em uma luta acirrada para retirar do ensino público todo e qualquer traço de criacionismo, mesmo em suas metamorfoses mais recentes (como o inteligente design), reencontrar, pelo viés do programa nanotecnológico, a problemática do design, do modelo, agora, simplesmente, com o homem no papel do demiurgo.
(…)

Jeremias e o Golem

___Gostaria de concluir esta reflexão com um relato talmúdico do século XIII, que chegou às minhas mãos por intermédio do biofísico francês Henri Atlan. Esse relato coloca em cena o profeta Jeremias no momento em que ela acaba de finalizar a criação de um golem. O relato não apresenta de modo nenhum essa criação como um ato de revolta contra Deus, mas, ao contrário, como o coroamento de um longo caminho de ascensão em direção à santidade e ao conhecimento, os dois juntando-se na perspectiva de uma imitatio Dei:

Com efeito, como saber que o iniciado conseguiu decifrar e compreender as leis da criação do mundo senão verificando que seu saber é eficaz naquilo que lhe permite, a ele próprio, criar um mundo? Como saber se seu conhecimento da natureza humana está correto senão verificando que ele lhe permite criar um homem?

(…)

__Retomemos Jeremias e seu homem artificial. Contrariamente a outros golens, esse fala. De modo completamente natural, ele se dirige primeiramente a seu criador e lhe diz, fazendo apelo à sua consciência: “Você se dá conta da confusão que acabou de introduzir no mundo? A partir de hoje, quando encontrarmos um homem ou uma mulher na rua, não saberemos mais se se trata de uma criatura de Deus ou sua!” Revela-se que Jeremias não havia pensado nisso. Muito perturbado, ele pede conselho a seu golem para reparar o que fez. E o homem artificial lhe responde: “Você só tem de me desfazer assim como me fez”. Jeremias assim o faz e disso tira a seguinte lição: não devemos renunciar a atingir o conhecimento perfeito que nos torna capazes de criar um homem, mas logo que o alcançarmos, devemos nos abster de fazê-lo. Atlan conclui: “Grande lição ele nos dá para meditar”.25 É isso que me permito convidar-nos a fazer, antes que seja tarde demais.

Embora só depois tenha lido o artigo que parece completar as lacunas que eu imaginava algumas conclusões anteriores permanecem. A fumaça foi suficiente para adivinhar de que tipo era o fogo. Tive várias idéias que me pareciam conectadas com o tema da palestra.

Uma idéia que me veio, e que acabei colocando rapidamente para Dupuy depois da palestra, é uma afirmação de Ernst Mayr, em seu ‘Biologia, Ciência Única’, de que o método reducionista que ele associava à Física, não se aplicava à Biologia. Popper conceituou o que era científico no princípio da falseabilidade. Afirmações que não são falseáveis não são cientificas e nem podem ser objetos da ciência. A conexão entre a falseabilidade como característica de uma sentença cientifica remete à possibilidade de verificação e reprodutibilidade. Mayr afirma que tais critérios são típicos da Física e não se aplicando perfeitamente à Biologia não a invalidam como disciplina cientifica. A questão da verificabilidade em relação a teoria da evolução, por exemplo, não se aplicaria e outras formas de corroboração seriam necessárias. No entanto, diz Mayr, a Biologia é científica. Mayr, discorrendo mais sobre os métodos da Biologia, realça também que muitas das propriedades são emergentes e não podem ser detectadas “no andar debaixo”. Significa que não é possível a abordagem reducionista da Física aqui. Propriedades no nível do tecido não podem ser deduzidas pesquisando-se no nível das células simplesmente. Dependem também de interações complexas entre as células e seus mecanismos de comunicação bioquímicos. Essa questão da emergência foi que comuniquei a Dupuy como impedimento para uma abordagem reducionista que atuasse criando nanomoléculas mas não tendo como articular a emergência por não estar cuidando das interações. Entendo que essa parte mais difícil só pode dar conta a evolução com seu laboratório descomunal de bilhões de anos de seleção dos sucessos e descarte do fracassos, falando de forma simplória. O projeto da nanobiotecnologia teria, no mínimo como problema, que articular uma solução para essa dificuldade. E não teria o tempo da evolução para corrigir as anomalias erráticas que poderiam surgir. A criação de virulência do tipo nanobactérias ou nanovírus completamente invencíveis por não haver sistema imunológico ou droga que interagisse com eles para elimina-los seria o menor dos pesadelos. A possibilidade de criação de microorganismos que não evoluiriam mais mas que, como uma mancha avassaladora, fosse substituindo a vida biológica por uma “vida artificial” estagnada daria, no final, um “brilho metálico” à Terra. Essa idéia de que a evolução tem recursos enormes, em termos de volume de matéria e tempo para atuar, não é tão espetacular como a idéia de um ser todo poderoso cuidando de tudo, mas dá conta perfeitamente das necessidades. E é bem mais simples.

Há algum tempo tive noticias sobre aplicações tecnológicas possíveis de nanotubos de carbono em varias áreas. Descobri até uma empresa coletando recursos para construir o Elevador Espacial (Veja também em HowStuffWorks), uma concepção de Artur Clark em um de seus livros de ficção cientifica, e detalhando as soluções de projeto necessárias e as vantagens de ter um artefato dessa natureza para colocar objetos no espaço de forma mais econômica. Mas o que mais me entusiasmou foi a possibilidade de ter memórias de computador não voláteis de altíssima capacidade de armazenamento. Algo que mudaria um aspecto importante da forma de processamento nos computadores no que diz respeito a persistência dos dados. O grau de simplificação seria tamanho que alavancaria uma produtividade abissal no desenvolvimento e até o desaparecimento de vastas áreas de pesquisa em computação por tornarem-se desnecessárias. Mas na época não pensei na possibilidade de um projeto mais ambicioso como a convergência NBIC. Dupuy brincou que, no futuro, a palestra dele poderia estar sendo transmitida por nanorobots para outro lugar. Um nano ‘big brother’ distribuído me veio a mente junto com um arrepio na espinha.

A questão dos criacionistas versus evolucionistas em torno do design inteligente veio a baila no trecho em Dupuy se admira que o tema retorne agora com a nanotecnologia, só que tendo o homem como demiurgo. Uma antinomia divertida é pensar que se o projeto NBIC tiver sucesso em criar uma vida artificial terá confirmado a tese dos criacionistas como viabilidade mas não terá corroborado a teste mais cara aos mesmos, que é a existência de um ser todo poderoso, em que o design inteligente é só um meio para empreender uma batalha pelos corações e mentes frente aos evolucionistas. Se fracassarem ganha a evolução como meio necessário para engendrar a complexidade e a miríade de organismos bem adaptados a meio ambiente. Acredito que a evolução é a melhor teoria para explicar o ambiente biológico mas que outro paradigma pode estar surgindo sem que haja possibilidade, devido a velocidade de seu surgimento, de atingir uma homeostase que o leve a um ponto de equilíbrio. Se pensarmos bem o próprio homem já é um ser artificial e fora da evolução do ponto de vista funcional. A cultura, e incluo aqui o seu substrato tecnológico, molda mais do que os imperativos biológicos.

Dupuy falou também do Mito de Anfitrião (Veja link no final do post). O tema é parecido com o do golem que diz a Jeremias que não seria mais possível encontrar um humano sem que houvesse dúvida sobre se não seria um golem. O teste de Turing para uma máquina inteligente traça um programa que visa justamente a indistinguibilidade entre o homem e uma máquina que soubesse responder indagações com a “perfeição” humana. Mas no teste de Turing não há uma mimetização pois a aparência de máquina é escondida por uma interface de máquina que também é usada para ocultar um humano. Alcmena amou Zeus pensando que era Anfitrião. Dupuy afirma que o amor de Alcmena foi oferecido para Anfitrião. Parece uma obviedade e só com intenções metafísicas pode-se tirar algo disso. Parece pregação no púlpito para as massas moldáveis. Não tem conteúdo. Asimov, nos seus contos de robots, não se cansa de brincar com o amor dirigido a robots e vice-versa. Nada garante contra a possibilidade da emergência de um conceito cultural como o amor, que pode ser encarado como uma sublimação do amor sexual, nas máquinas que mimetizem o homem. Principalmente se o amor é colocado de forma idealizada. Mas se o substrato é o impulso sexual isso teria que ser colocado lá. Mas para quê? Para reprodução? Lembrei também do filme Solaris, baseado no livro homônimo de Stanislaw Lem. Um ser com aspecto de um mar procurava se comunicar canhestramente criando artefatos que detectava na psique dos astronautas em uma base espacial que orbitava seu planeta. As aberrações forma melhorando até que ele envia uma réplica da mulher morta de um astronauta. E o amor ressurge mesmo quando o objeto é sabidamente uma farsa.

Que as invenções da ciência podem ser perigosíssimas é inegável. Depois da bomba atômica isso ficou patente. No entanto já antes o gás de mostarda usado com zelo conseguiu exterminar muito gente sem que a ciência fosse condenada. Militares e políticos no poder são os sujeitos na decisão de utilização da tecnologia para fins danosos. Os cientistas podem ser culpados de colocar seus serviços a disposição de quem pode financiar suas pesquisas sem se importar como a coisa vai se desenrolar. Um impasse está se delineando pois quanto mais poder a técnica colocar nas mãos dos homens mais fácil será semear catástrofes com um simples apertar de um botão. Talvez a auto extinção do único animal que não suporta estar só no universo sem que alguém o testemunhe esteja vindo a passos largos. Talvez seja um niilismo coletivo que não pode suportar outra solução que não o suicídio coletivo.
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Escritos políticos

Junho 18, 2007 · Não Há Comentários

Folhando o livro Escritos sobre Política (volume I), contendo uma coletânea de aforismos de Nietzsche, encontrei na contracapa o seguinte, que achei interessante citar aqui:

O caráter demagógico e o propósito de atuar sobre as massas são atualmente comuns a todos os partidos políticos: todos são obrigado, em razão do referido propósito, a transformar os seus princípios em grandes baboseiras a fresco para assim poder pintá-las nas paredes.

Friedrich Nietzsche

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Pró-células-tronco embrionárias - petição ao STF

Maio 17, 2007 · Não Há Comentários

Não sei o valor legal disso mas como manifestação pode ser válido e ter resultados. Veja abaixo o trecho inicial da petição:

To: Ao Supremo Tribunal Federal (STF)

Direito à esperança de cura e vida, sim.
Ao obscurantismo, não.

Brasília, 20 de abril de 2007. Definitivamente, um marco na história do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 178 anos de existência, a mais alta corte do Brasil realizou, pela primeira vez, uma audiência pública. Objetivo: ouvir cientistas sobre a lei que autoriza a realização no país de pesquisa com células-tronco embrionárias. Pudera. É a aposta de investigadores do mundo inteiro para a cura de várias doenças ainda incuráveis, como mal de Parkinson, diabetes, doenças neuromusculares e secção da medula espinhal por acidentes e armas de fogo.

A avançada lei foi aprovada pelo Congresso Nacional por placar estrondoso: 96% dos senadores e 85% dos deputados federais deram-lhe a vitória. O presidente Luís Inácio Lula da Silva fez o mesmo. Rapidamente a sancionou. Só que ela parou no STF porque o subprocurador-geral da República, Cláudio Fonteles, alegou que é inconstitucional. Questionado sobre se sua ação não teria motivação religiosa, o franciscano Fonteles acusou a geneticista, professora e cientista Mayana Zatz de viés judaico. Fonteles disse ao jornal Folha de S. Paulo: “A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato. Na religião judaica, a vida começa com o nascimento do ser vivo. Então, ao defender a posição dela, ela defende a posição religiosa dela, que é judia e que a gente tem de respeitar”.

Acontece que:

1) A posição de Mayana Zatz em defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias não é pessoal e muito menos religiosa. A geneticista participou da audiência pública no STF como porta-voz da Academia Brasileira de Ciências, da qual é membro. Sua postura é a mesma defendida pelas academias de ciências de outros 65 países. (…)

Se quiser assinar a petição clique aqui.

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Nulo, branco ou o que?

Setembro 12, 2006 · Não Há Comentários

A campanha pelo voto nulo tem suscitado a campanha pelo voto consciente pelas autoridades e meios de comunicação num engajamento que pode até levantar uma suspeição: se o voto nulo não anula a eleição (a nulidade e o voto nulo só têm em comum o radical conforme atesta a lei eleitoral) de que têm medo as autoridades e afins? Têm medo da tese anarquista do esvaziamento moral do ato de votar e talvez mais das suas consequências no imaginário do eleitor. Se a democracia se restringe a votar e não permite (a não ser de forma extremamente dificultosa) grandes controles posteriores o eleitor a cada dia se descobre como “vaca de presépio” que não muge e nem dá leite. O eleitor talvez comece a reivindicar mais poder no processo todo do que apenas dar carta-branca periodicamente. Os anarquistas sonham com mais. Que uma destruição criativa surja daí. Alguém colocou de forma pragmática e cristalina seu dilema: não tinha nenhum candidato que merecesse sua confiança ou que tivesse minimamente propostas factíveis ou mesmo interessantes e, por isso, não queria votar em nenhum deles. Votar no menos pior, nestes tempos de nivelamento dos políticos a uma canalha, era também uma tarefa dificílima, as diferenças parecendo ser infinitesimais. Uma minoria de “andorinhas” que “não podem fazer o verão” também não representa uma solução contra uma revoada de abutres. E o que dizer do eleitor que não acredita mais no sistema? Os políticos é claro que acreditam no sistema pois se não iriam fazer outra coisa. Acreditam que podem mudar alguma coisa no interesse coletivo, de grupos ou até mesmo no interesse individual como está se tornando mais comum. O parlamento, mais exposto que o executivo e o judiciário dado o seu caráter verboso, é que aparenta mais a imundície reinante e talvez seja órgão que mais se mostre talvez dispensável: uma contradição já que a democracia é confundida bastante com um processo contencioso onde todos são iguais perante o direito de reclamar e argumentar. Na execução a história é outra e o totalitarismo burocrático muitas vezes se impôe. Lênin, citado um pouco fora do contexto, parece estar congelando para sempre um juízo contundente sobre o parlamento e suas relações com outros poderes e com a “plebe”:

(…) a verdadeira tarefa “governamental” é feita por detrás dos bastidores, e são os ministérios, as secretárias, os estados-maiores que a fazem. Nos parlamentos, só se faz tagarelar, com o único intuito de enganar a “plebe”. Tanto isso é verdade que, mesmo na república burguesa democrática, todos esses pecados do parlamentarismo já se fazem sentir, antes mesmo que a república tenha conseguido criar um verdadeiro parlamento. (…)

Lênin, em O Estado e a Revolução,

3. Supressão do Parlamento

Veja também Eleições e democracia.

 

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Estamira

Agosto 22, 2006 · 1 Comentário

Estamira, personagem real do documentário Estamira, em Carta Capital, no 403, p 53, na entrevista para o artigo “A Fala dos Sem-Voz”:

“Acho que por causa dos problemas da cabeça, eu quase não choro. Mas você sabe que no dia que o Lula foi eleito eu chorei? Menina, eu fiquei tão feliz. Ele nem fez nada para mim, não, mas eu acho tão bonito ele ser presidente. Como era o nome daquele outro? (Fernando Henrique?) Isso. Ele também era um homem bom. Ah… Mas o Lula, a gente gosta dele. Você acha que ele vai ver o filme, é?”

É fácil escutar os próximos com sua sedução da proximidade. Aqueles distantes, como Estamira, podem no máximo comover e, na melhor das hipóteses, mostrar a verdadeira impotência dos que se acham poderosos.

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Eleições e democracia

Junho 30, 2006 · 1 Comentário

Porque não gosto de eleições é um texto interessante para ser relido nestes tempos de politicagem furiosa. Nele fica claro o engôdo de confundir o direito de votar com democracia, com o direito de participar dos destinos e decisões. A democracia representativa, inescapável por razões logísticas, já que não é possível a democracia direta das comunas e cantões suiços, é solo fértil para as intermediações inescrupulosas.

Primeiro o “eleitor” é comprado de forma direta e indiretamente. Quando é pobre recebe telhas para concluir o seu barraco. Quando é empregado no governo vota naquele que não vai abalar o seu “status quo” empregatício. Quando é um pequeno empresário ou autônomo vota naquele que promete melhorar os seus lucros com isenção ou redução de impostos. Num nível aparentemente mais elevado os rumos da política econômica interessam àqueles que tem mais capital, os grandes empresários, que agem e influenciam de forma estratégica. Estes são os verdadeiros eleitores e, em vez de se venderem, compram os políticos com financiamento de campanhas cujo dinheiro vai para os desvios e bolsos dos corruptos e, principalmente, para a compra dos votos e consciência dos “eleitores”.

E, podem perguntar, existe uma forma melhor? E invariavelmente saca-se o pragmatismo barato de que outras alternativas seriam piores. Ninguém nega que a idéia de democracia é inestimável. O problema é que a palavra está desgastada o que é atestado pelos adjetivos que necessariamente a tem acompanhado à esquerda e à direita. Democracia “verdadeira”, democracia direta, democracia indireta ou representativa, democracia popular (uma redundância?), democracia burguesa, etc. A falta de controle e a dificultação dos mecanismos de participação tornam uma falácia um governo, dito democrático, mas que é uma farsesca autocracia.

Mesmo quando a “esquerda”, com suas propostas historicamente alinhadas com uma democracia mais participativa e não outorgada pelo poder econômico, só é guindada ao poder quando faz várias concessões e tais que suas ações mais autênticas e coerentes com seus princípios viram pó diante da avalanche de medidas e princípios vindos de inspiração contrária a tudo que ela sempre foi. Na época de conquistar o poder abdica do conteúdo em favor da embalagem marqueteira. Com isso espera-se que “as boas intenções”, embora soterradas pelos discursos eleitoreiros e de fachada, sobrevivam depois. Mas o postulado anti-metafísico, de que aparência e essência deviam ter o mesmo nome e status faz, sim, sobreviver o paradoxo.

José Saramago, no artigo O que é, afinal, a democracia?, discorre de forma clara sobre o assunto quando escreve:

“O direito de voto, por exemplo, expressão de uma vontade política, também é um ato de renúncia a essa mesma vontade, pois o eleitor a delega a um candidato. O ato de votar, pelo menos para uma parcela da população, é uma forma de renúncia temporária à ação política pessoal, discretamente adiada até as eleições seguintes, quando os mecanismos de delegação de poder voltarão ao ponto de partida para tudo recomeçar de novo.”

Em A justiça, a democracia e os sinos ele escreve:

“E contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica”

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Adelmo Genro Filho

Maio 12, 2006 · Não Há Comentários

Certa vez procurando um livro de Xadrez para comprar em uma livraria fui atraído por uma capa. Nela havia peças de Xadrez em um canto do tabuleiro e o título “Marxismo, Filosofia Profana”. Era um livro de Adelmo Genro Filho, que eu não conhecia, o qual, quando o inspecionei, provocou em mim o irresistível apelo por adquirí-lo. Adorei tanto o livro que não o li, praticamente o devorei. Meu entusiamo levou-me a emprestá-lo e nunca mais me devolveram. Este é o risco de emprestar bons livros. Já tentei várias vezes em vão comprar de novo um exemplar. Mas para minha grata surpresa encontro o texto na íntegra no site http://www.adelmo.com.br. Muito bom! Vou relê-lo imediatamente.

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Promessa é dívida…

Janeiro 26, 2006 · Não Há Comentários

Eu também sempre pensei que votar, a famosa prerrogativa que a propaganda diz ser da cidadania, não é suficiente para configurar o que seja democracia. Isso desde as presenciadas admoestações dos manipuladores de assembléias de sindicato, que percebendo o cansaço dos “miolos moles”, gritavam: “Vamos votar! Vamos votar!”.

Eis o texto prometido:

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