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Entries categorized as ‘Filosofia’

A moda moral de uma sociedade mercantil

Maio 6, 2008 · Não Há Comentários

“A moda moral de uma sociedade mercantil — Por trás do princípio básico da atual moral: ‘ações morais são as ações da simpatia pelos outros’, vejo agir o impulso social da temerosidade, que assim se mascara intelectualmente; esse impulso deseja, como a coisa suprema e mais importante, que seja tirada da vida toda periculosidade que ela já tinha, e que todos ajudem a fazê-lo com todas as forças: por isso, apenas as ações que tem em mira a segurança comum e o sentimento de segurança da comunidade merecem o predicado de ‘bom’! — Como devem ter pouca alegria consigo os homens de hoje, se uma tal tirania do temor lhes prescreve a lei moral suprema, se permitem, sem objeção, que lhes seja ordenado não olhar para si, mas ter olhos de lince para toda miséria, todo sofrimento de outra parte! Não estaremos, com esse descomunal propósito de limar todas as arestas e asperezas da vida, a ponto de transformar a humanidade em areia? Areia! Pequena, redonda, tenra, infinita areia! É este o seu ideal, arautos das afecções simpáticas? — Enquanto isso, fica sem resposta a questão de saber se somos mais úteis ao outro indo a seu encontro e ajudando-o — o que pode suceder de modo apenas superficial, quando não é uma interferência e remodelação tirânica –, ou fazendo de si mesmo algo que o outro vê com deleite, como um belo, tranqüilo jardim fechado, que tem muros altos para as tempestades e a poeira da estrada, mas também um portão hospitaleiro.”

Aurora, aforismo 174, Nietzsche

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Os sonhos da razão técnica

Maio 1, 2008 · Não Há Comentários

El sueno de la razon produce monstruos - Francisco Goya

Escrevi este post durante o ciclo de palestras no Maison de France. Ficou esquecido entre os rascunhos do blog até agora.

Em 3/9/2007 fui à palestra de Jean-Pierre Dupuy com o título acima. O título me fez também lembrar do título de um livro de Davis Philip: ‘O sonho de Descartes’. Nele Philip fala do sonho da matematização do mundo. Um sonho também Pitagórico. Os computadores são um exemplo dessa matematização do mundo.

Dupuy citou também a frase ‘It from Bit’, de John Archibald Wheeler. Tudo é informação. O sonho do teletransporte está em marcha. Afinal o DNA é só informação. Basta transmitir e reconstruir. Os sonhos de potência também me lembram o livro de Deustch (pt), ‘A essência da Realidade’, onde, num aparente devaneio, a teoria de tudo, o sonho da unificação da teoria do mundo, a viagem no tempo, a realidade artificial, a computação quântica, multiversos, e mais, formam um caleidoscópio impressionante e um pouco fantasmagórico. Dupuy fala de uma biologia sintética. Os arautos dessa biologia alegam que ela pode ter como ponto de partida a matéria inanimada.

Tudo isso parece agastar Dupuy que citou a frase ambígua ”El sueno de la razon produce monstruos”, de Goya, como uma forma de chamar a atenção sobre uma suposta arrogância dos cientistas e dos perigos aí inclusos. Realçou que ’sueno’ pode ser ’sonho’ ou ’sono’, quando traduzido. O sonho da razão produz monstros por causa de sua ambição desmedida e sem freios em face das conseqüências. O sono da razão produz monstros pela falta de consciência diante do que está em jogo.

Falou da convergência NBIC (Nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciência cognitiva) que é a causa da necessidade do debate ‘nanoético’ no ponto de vista de Dupuy. Dupuy brincou que não seria uma ética nanica. Como sua palestra ficou truncada resolvi ler também um artigo dele na Web: OS DESAFIOS ÉTICOS DAS NANOTECNOLOGIAS (Veja link no final do post), onde poderia colher mais informações sobre o assunto da ética e suas posições a respeito. Descobri que este artigo, uma tradução para o português na Revista InterfacEHS, publicado originalmente no Le Cahiers du MURS, em 2006, é bem parecido em seu conteúdo com a palestra que assisti. Assim pude recuperar algumas informações perdidas pelo truncamento da palestra. Cito abaixo alguns trechos do artigo que achei mais relevantes para minha exposição:

A etapa seguinte consiste, evidentemente, em perguntar se o espírito não poderia substituir a natureza para completar, mais eficaz e inteligentemente, sua obra criadora. Broderick interroga de modo retórico: “Não podemos pensar que os nanossistemas concebidos pelo espírito humano colocarão em curto-circuito toda errática darwiniana para se precipitarem de modo correto em direção ao sucesso do modelo fabricado?”

_Em uma perspectiva de estudos culturais comparados, é fascinante ver a ciência americana, que teve que entrar em uma luta acirrada para retirar do ensino público todo e qualquer traço de criacionismo, mesmo em suas metamorfoses mais recentes (como o inteligente design), reencontrar, pelo viés do programa nanotecnológico, a problemática do design, do modelo, agora, simplesmente, com o homem no papel do demiurgo.
(…)

Jeremias e o Golem

___Gostaria de concluir esta reflexão com um relato talmúdico do século XIII, que chegou às minhas mãos por intermédio do biofísico francês Henri Atlan. Esse relato coloca em cena o profeta Jeremias no momento em que ela acaba de finalizar a criação de um golem. O relato não apresenta de modo nenhum essa criação como um ato de revolta contra Deus, mas, ao contrário, como o coroamento de um longo caminho de ascensão em direção à santidade e ao conhecimento, os dois juntando-se na perspectiva de uma imitatio Dei:

Com efeito, como saber que o iniciado conseguiu decifrar e compreender as leis da criação do mundo senão verificando que seu saber é eficaz naquilo que lhe permite, a ele próprio, criar um mundo? Como saber se seu conhecimento da natureza humana está correto senão verificando que ele lhe permite criar um homem?

(…)

__Retomemos Jeremias e seu homem artificial. Contrariamente a outros golens, esse fala. De modo completamente natural, ele se dirige primeiramente a seu criador e lhe diz, fazendo apelo à sua consciência: “Você se dá conta da confusão que acabou de introduzir no mundo? A partir de hoje, quando encontrarmos um homem ou uma mulher na rua, não saberemos mais se se trata de uma criatura de Deus ou sua!” Revela-se que Jeremias não havia pensado nisso. Muito perturbado, ele pede conselho a seu golem para reparar o que fez. E o homem artificial lhe responde: “Você só tem de me desfazer assim como me fez”. Jeremias assim o faz e disso tira a seguinte lição: não devemos renunciar a atingir o conhecimento perfeito que nos torna capazes de criar um homem, mas logo que o alcançarmos, devemos nos abster de fazê-lo. Atlan conclui: “Grande lição ele nos dá para meditar”.25 É isso que me permito convidar-nos a fazer, antes que seja tarde demais.

Embora só depois tenha lido o artigo que parece completar as lacunas que eu imaginava algumas conclusões anteriores permanecem. A fumaça foi suficiente para adivinhar de que tipo era o fogo. Tive várias idéias que me pareciam conectadas com o tema da palestra.

Uma idéia que me veio, e que acabei colocando rapidamente para Dupuy depois da palestra, é uma afirmação de Ernst Mayr, em seu ‘Biologia, Ciência Única’, de que o método reducionista que ele associava à Física, não se aplicava à Biologia. Popper conceituou o que era científico no princípio da falseabilidade. Afirmações que não são falseáveis não são cientificas e nem podem ser objetos da ciência. A conexão entre a falseabilidade como característica de uma sentença cientifica remete à possibilidade de verificação e reprodutibilidade. Mayr afirma que tais critérios são típicos da Física e não se aplicando perfeitamente à Biologia não a invalidam como disciplina cientifica. A questão da verificabilidade em relação a teoria da evolução, por exemplo, não se aplicaria e outras formas de corroboração seriam necessárias. No entanto, diz Mayr, a Biologia é científica. Mayr, discorrendo mais sobre os métodos da Biologia, realça também que muitas das propriedades são emergentes e não podem ser detectadas “no andar debaixo”. Significa que não é possível a abordagem reducionista da Física aqui. Propriedades no nível do tecido não podem ser deduzidas pesquisando-se no nível das células simplesmente. Dependem também de interações complexas entre as células e seus mecanismos de comunicação bioquímicos. Essa questão da emergência foi que comuniquei a Dupuy como impedimento para uma abordagem reducionista que atuasse criando nanomoléculas mas não tendo como articular a emergência por não estar cuidando das interações. Entendo que essa parte mais difícil só pode dar conta a evolução com seu laboratório descomunal de bilhões de anos de seleção dos sucessos e descarte do fracassos, falando de forma simplória. O projeto da nanobiotecnologia teria, no mínimo como problema, que articular uma solução para essa dificuldade. E não teria o tempo da evolução para corrigir as anomalias erráticas que poderiam surgir. A criação de virulência do tipo nanobactérias ou nanovírus completamente invencíveis por não haver sistema imunológico ou droga que interagisse com eles para elimina-los seria o menor dos pesadelos. A possibilidade de criação de microorganismos que não evoluiriam mais mas que, como uma mancha avassaladora, fosse substituindo a vida biológica por uma “vida artificial” estagnada daria, no final, um “brilho metálico” à Terra. Essa idéia de que a evolução tem recursos enormes, em termos de volume de matéria e tempo para atuar, não é tão espetacular como a idéia de um ser todo poderoso cuidando de tudo, mas dá conta perfeitamente das necessidades. E é bem mais simples.

Há algum tempo tive noticias sobre aplicações tecnológicas possíveis de nanotubos de carbono em varias áreas. Descobri até uma empresa coletando recursos para construir o Elevador Espacial (Veja também em HowStuffWorks), uma concepção de Artur Clark em um de seus livros de ficção cientifica, e detalhando as soluções de projeto necessárias e as vantagens de ter um artefato dessa natureza para colocar objetos no espaço de forma mais econômica. Mas o que mais me entusiasmou foi a possibilidade de ter memórias de computador não voláteis de altíssima capacidade de armazenamento. Algo que mudaria um aspecto importante da forma de processamento nos computadores no que diz respeito a persistência dos dados. O grau de simplificação seria tamanho que alavancaria uma produtividade abissal no desenvolvimento e até o desaparecimento de vastas áreas de pesquisa em computação por tornarem-se desnecessárias. Mas na época não pensei na possibilidade de um projeto mais ambicioso como a convergência NBIC. Dupuy brincou que, no futuro, a palestra dele poderia estar sendo transmitida por nanorobots para outro lugar. Um nano ‘big brother’ distribuído me veio a mente junto com um arrepio na espinha.

A questão dos criacionistas versus evolucionistas em torno do design inteligente veio a baila no trecho em Dupuy se admira que o tema retorne agora com a nanotecnologia, só que tendo o homem como demiurgo. Uma antinomia divertida é pensar que se o projeto NBIC tiver sucesso em criar uma vida artificial terá confirmado a tese dos criacionistas como viabilidade mas não terá corroborado a teste mais cara aos mesmos, que é a existência de um ser todo poderoso, em que o design inteligente é só um meio para empreender uma batalha pelos corações e mentes frente aos evolucionistas. Se fracassarem ganha a evolução como meio necessário para engendrar a complexidade e a miríade de organismos bem adaptados a meio ambiente. Acredito que a evolução é a melhor teoria para explicar o ambiente biológico mas que outro paradigma pode estar surgindo sem que haja possibilidade, devido a velocidade de seu surgimento, de atingir uma homeostase que o leve a um ponto de equilíbrio. Se pensarmos bem o próprio homem já é um ser artificial e fora da evolução do ponto de vista funcional. A cultura, e incluo aqui o seu substrato tecnológico, molda mais do que os imperativos biológicos.

Dupuy falou também do Mito de Anfitrião (Veja link no final do post). O tema é parecido com o do golem que diz a Jeremias que não seria mais possível encontrar um humano sem que houvesse dúvida sobre se não seria um golem. O teste de Turing para uma máquina inteligente traça um programa que visa justamente a indistinguibilidade entre o homem e uma máquina que soubesse responder indagações com a “perfeição” humana. Mas no teste de Turing não há uma mimetização pois a aparência de máquina é escondida por uma interface de máquina que também é usada para ocultar um humano. Alcmena amou Zeus pensando que era Anfitrião. Dupuy afirma que o amor de Alcmena foi oferecido para Anfitrião. Parece uma obviedade e só com intenções metafísicas pode-se tirar algo disso. Parece pregação no púlpito para as massas moldáveis. Não tem conteúdo. Asimov, nos seus contos de robots, não se cansa de brincar com o amor dirigido a robots e vice-versa. Nada garante contra a possibilidade da emergência de um conceito cultural como o amor, que pode ser encarado como uma sublimação do amor sexual, nas máquinas que mimetizem o homem. Principalmente se o amor é colocado de forma idealizada. Mas se o substrato é o impulso sexual isso teria que ser colocado lá. Mas para quê? Para reprodução? Lembrei também do filme Solaris, baseado no livro homônimo de Stanislaw Lem. Um ser com aspecto de um mar procurava se comunicar canhestramente criando artefatos que detectava na psique dos astronautas em uma base espacial que orbitava seu planeta. As aberrações forma melhorando até que ele envia uma réplica da mulher morta de um astronauta. E o amor ressurge mesmo quando o objeto é sabidamente uma farsa.

Que as invenções da ciência podem ser perigosíssimas é inegável. Depois da bomba atômica isso ficou patente. No entanto já antes o gás de mostarda usado com zelo conseguiu exterminar muito gente sem que a ciência fosse condenada. Militares e políticos no poder são os sujeitos na decisão de utilização da tecnologia para fins danosos. Os cientistas podem ser culpados de colocar seus serviços a disposição de quem pode financiar suas pesquisas sem se importar como a coisa vai se desenrolar. Um impasse está se delineando pois quanto mais poder a técnica colocar nas mãos dos homens mais fácil será semear catástrofes com um simples apertar de um botão. Talvez a auto extinção do único animal que não suporta estar só no universo sem que alguém o testemunhe esteja vindo a passos largos. Talvez seja um niilismo coletivo que não pode suportar outra solução que não o suicídio coletivo.
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A queda

Dezembro 8, 2007 · Não Há Comentários

Ganhei ontem o livro ‘A queda‘, de Albert Camus, na brincadeira de amigo oculto do meu trabalho. Lendo a orelha descobri que ele é uma espécie de resposta às críticas ao livro anterior, ‘O homem revoltado‘, do qual gostei muito. Já comecei a ler.

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Ida à Bienal do Livro

Setembro 23, 2007 · Não Há Comentários

Resolvemos todos ir à Bienal, no Riocentro. Foi muito cansativa e demorada a viagem de ônibus para lá. Iasmin dormiu um pouco no trajeto. Voltamos de frescão e pregados. Na Bienal, com Iasmin quase o tempo todo no colo, ficou impossível flanar pelos estandes como planejava. Como chegamos perto de 13h comemos logo uma pizza a guisa de almoço. Compramos uns livrinhos infantis para Iasmin. Eu e Natacha compramos dois livros. O dela sobre microbiologia. O meu sobre Espinosa (A Vida e o Espírito de Baruch de Espinosa). Na contracapa do livro sobre Espinosa há um texto que não sei se do mesmo ou do autor anônimo que escreveu o livro. Já o tinha visto quando folheei o livro pela primeira vez numa livraria no centro da cidade. O texto é o seguinte:

Ainda que importe a todos os homens conhecer a verdade, todavia pouquíssimos a conhecem, porque a maioria deles se crê incapaz de procurá-la por si mesmos, ou não que se dar ao trabalho de fazê-lo. Assim, não admira que o mundo esteja repleto de opiniões vãs e ridículas, nada sendo mais capaz de lhes dar curso do que a ignorância. De fato, é ela a única fonte das falsas idéias que se têm da divindade, da alma, dos espíritos e de quase todos os erros que dela derivam. É um uso que prevaleceu, contentar-se com os prejulgamentos que se carregam desde o nascimento, e consultar pessoas pagas para sustentar opiniões recebidas e, por conseguinte, interessadas a convencer o povo a respeito delas, sejam verdadeiras ou falsas. [...] Se o povo pudesse compreender em qual abismo a ignorância o arremessa, sacudiria logo o jugo dessas almas venais, que, para seu interesse particular, o mantém nessa ignorância.

O espírito do senhor Baruch de Espinosa

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Pensando a distopia

Setembro 1, 2007 · Não Há Comentários

Um colega de trabalho me chamou atenção para um ciclo de palestras muito interessante no Maison de France, no Rio. Infelizmente algumas palestras já se passaram. Vai acontecer também em algumas outras capitais. Vou tentar participar das palestras que restaram.

Os rumos atuais para o papel do que é humano no mundo está extremamente nebuloso, como atesta o texto de Adauto Novaes, da curadoria do evento, do qual cito algumas partes:

Mutações são passagens de um estado de coisas a outro - passagens muitas vezes indefinidas do ponto de vista conceitual, que nos deixam à deriva, quando as trilhas são pouco visíveis ou pouco confiáveis, em particular se elas foram abertas, como acontece hoje, não propriamente pelo trabalho do pensamento, mas pela técnica, o que marca, pelo menos até agora, certa resignação do saber diante do poder da ciência. Isso não quer dizer que, antes, tínhamos muita certeza de onde estávamos e para onde íamos. É preciso construir, pois, novo itinerário uma vez que já não temos nenhuma garantia de retorno aos velhos roteiros e uma vez que o positivismo da técnica só nos pode indicar caminhos falsos.

E ainda, em outra parte, ele cita Jean Baudrillard falando de uma revolução antropológica sucedendo as revoluções históricas:

revolução que corresponde “a uma perfeição automática do aparelho técnico e uma desqualificação definitiva do homem, da qual nem ele mesmo tem consciência. No estagio hegemônico da técnica, que é o da potência mundial, o homem perde não apenas sua liberdade, mas a imaginação de si mesmo.”

E, inscrevendo Karl Jasper em seu texto, que, em 1958, diz, sobre a medicina e a técnica cada vez mais sofisticada, o seguinte:

“mais o saber e o poder científicos aumentam, mais os aparelhos que ajudam no diagnóstico e no tratamento são eficientes, mais se torna difícil encontra um bom médico, ou mesmo um simples médico”. Jasper conclui com um diagnóstico “sinistro”, como ele mesmo diz: “Nesta situação, parece objetivo perguntar-se se caminhamos em direção a uma existência que não é mais verdadeiramente humana, se nos dirigimos assim ao fim da humanidade. Mas não saberíamos responder a esta questão objetivamente recorrendo ao nosso saber. Para o médico, como para qualquer homem, a questão é, ao contrario, saber que decisão ele toma, por que ele quer viver e agir. Esta perspectiva sinistra pode ocultar a abertura de novas possibilidades de nosso ser.”

Cada vez mais os pensadores têm que se debruçar, não mais sobre o tema da utopia e sua utilidade para a vida, mas sobre a distopia e seu aspecto sinistro. A figura de Da Vinci, onde o homem é a medida do mundo, não representa mais o ser moderno, cada vez mais periférico e alijado nos processos em vórtice avassalador e de moto contínuo aparentemente impossíveis de serem estancados ou redirecionados.

Programação:

RIO DE JANEIRO - MAISON DE FRANCE - terças e quartas, às 18h30
03 set A fabricação do homem e da natureza, por Jean-Pierre Dupuy
04 set Os três tempos da mutação, por Luiz Felipe Alencastro
05 set O novo inconsciente, por Lionel Naccache
10 set Por um saber sem fronteiras, por Sérgio Paulo Rouanet
11 set As mutações do poder e os limites do humano, por Newton Bignotto
12 set Poesia sem palavras?, por Michel Déguy (17 h)
12 set Novas afinidades eletivas, por Eugène Enriquez (18:30 h)
17 set Metamorfoses do tempo, por Olgária Matos
18 set Depressão e imagem do novo mundo, por Maria Rita Kehl
19 set Sobre o caos e novos paradigmas, por Luiz Alberto Oliveira
24 set Fim da guerra clássica - novos estados de violência, por Frédéric Gros
25 set O que mantém o homem vivo: devaneios
sobre algumas transfigurações do humano, por Renato Lessa
26 set Máquinas utópicas e distópicas, por João Camillo Penna
02 out Metamorfoses da visibilidade, por Paulo Sérgio Duarte 

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Biografia de Nietzsche

Julho 27, 2007 · Não Há Comentários

Ontem comprei, na livraria Argumento, a biografia de Nietzsche escrita por Safranski.

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Botul

Julho 14, 2007 · 1 Comentário

Voltando hoje na Travessa do Shopping Leblon voltei de novo ao Botul e seu botulismo em Nietzsche e o demônio do meio-dia. Folheando o capítulo sobre o eterno retorno, uma das mais intrigantes idéias de Nietzsche que, embora não seja original, é um dos pontos culminantes de sua obra, deparei com o texto satírico que, apesar disto, expressa de forma esclarecedora o que é:

Por exemplo, O Eterno Retorno…Era o achado que o deixava mais orgulhoso. Era sua coisa. Sua marca na história da humanidade. Aplicou-o em si mesmo? A resposta é não. Olhem-no sofrer.

Suportar a separação, o desamor, fazer o luto de uma bela história, de uma esperança — do gênero “com você não terei mais medo…” –, viver isso uma vez é de morrer. Mas revivê-lo uma segunda vez… Esse gênero de pensamento insustentável é rapidamente afastado com um revés da mão, como se espanta um inseto nocivo.

Mas vivê-lo uma infinidade de vezes? Aí, é o pior dos suplícios que se possa imaginar. Que louco ousaria propor esse pensamento atroz como chave da felicidade, fórmula mágica da filosofia?

Quem?

Nietzsche!

Aqueles que falaram disso antes dele falavam de outra coisa. Os estóicos, por exemplo, pensavam que o Mundo estava submetido a um grande ciclo. Antes deles, Heráclito pensava que, periodicamente, durante o Grande Ano, o mundo se regenerava por uma catástrofe, por um fogo purificador. E já o Eclesiástico escrevia: “Tudo acontece da mesma forma sob o sol.”

Nietzsche diz outra coisa. Ele não afirma que a História do Mundo é um eterno retorno. Não emite um julgamento sobre a realidade, ele fixa um desafio e um programa: devemos fazer como se fosse o caso, como se fôssemos reviver uma infinidade de vezes nossa vida, cada instante de nossa vida, inclusive os mais dolorosos.

Masoquismo? Não, amor pela vida! Ou como ele diz amor fati, amor pelo destino. Nada a ver com fatalismo “maometano”, para falar como Leibniz. O fatalista resigna-se a sofrer o Destino, o nietzschiano ama ativamente a roda do Destino, mesmo quando tira para ele o número errado. Porque é seu número…

Se formos capazes de nos “eterno-retornarmos” — perdoem-me o barbarismo — evitaremos a fuga no devaneio e no ideal. Pois ao sonharmos com uma vida melhor, jogamos-nos na goela das paixões tristes — nostalgia, melancolia, ressentimento, ciúme –, vivemos por procuração, como Emma Bovary, vale dizer que não vivemos. Que cretinismo acreditar que, em outro lugar, com outra pessoa, sob outro céu, num outro regime político, em outra vida, com um nariz mais curto ou mais comprido, seria melhor…! Nietzsche só vê nesses “outros lugares” sintomas de uma grave doença: a incapacidade de aceitar a vida como ela é, isto é, tecida de alegria e sofrimento. Aceitar a vida é aceitar toda a vida.

Comprei o livro.

Veja também o que escrevi num post anterior.

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Botulismo

Junho 20, 2007 · Não Há Comentários

Outro dia ao visitar o cantinho temático sobre Nietzsche na livraria Travessa no Shoping Leblon me deparei com um título curioso: Nietzsche e o demônio do meio-dia, de Jean-Baptiste Botul. A toxina do botulismo é muito usada atualmente para retesar a testa das madames mas as citações sobre o botulismo, uma corrente inaugurada por Botul, um “escritor da tradição oral”, ao contrário, faziam minha testa franzir aos efeitos das referências um tanto copiosas a respeito de Botul numa supeitosa atitude um tanto inconsciente. Dizem que a mentira é sempre mais elaborada do que a “verdade”. E que a vontade de verdade, que nós faz sempre tentar dar sentido a tudo e principalmente às coisas vertidas no papel, colabora para o engano e o erro. O papel aceita tudo e tudo aceitamos desde que já aceito pelo papel. Talvez com base nessas premissas foi que Frédéric Pagès escreveu sob o heterônimo de Botul o fake citado. O embuste foi bem arquitetado sendo a editora uma casa respeitada na veiculação de obras sérias e o editor garante que, apesar do engano, os fatos contidos no livro são fidedignos. Até algumas resenhas sobre a obra na imprensa foram feitas de forma ingênua sem perceber que Botul nunca existiu. Eu particularmente gostei do livro e já o tinha colocado na minha wish list (e ainda o mantenho lá) antes de pesquisar na Internet e encontrar as evidências da razão da minha desconfiança. Folheando o livro achei que é uma obra de sátira interessante e com considerações pertinentes, na minha opinião, sobre Lou Salomé, a amada de Nietzsche. Botul tem outros títulos e o próprio Pagès já escreveu outra obra satírica sem a máscara do heterônimo.

Veja também KANT E BARRIGAS.

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Escritos políticos

Junho 18, 2007 · Não Há Comentários

Folhando o livro Escritos sobre Política (volume I), contendo uma coletânea de aforismos de Nietzsche, encontrei na contracapa o seguinte, que achei interessante citar aqui:

O caráter demagógico e o propósito de atuar sobre as massas são atualmente comuns a todos os partidos políticos: todos são obrigado, em razão do referido propósito, a transformar os seus princípios em grandes baboseiras a fresco para assim poder pintá-las nas paredes.

Friedrich Nietzsche

(more…)

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Kit de detecção de mentiras

Setembro 19, 2006 · Não Há Comentários

Nesses tempos de eleições coletei várias citações e apuds como forma de estimular a leitura do excelente artigo “A Arte Refinada de Detectar Mentiras”.

Em nossa época, temos padrões menos severos. Contamos às crianças histórias sobre Papai Noel, o coelhinho da Páscoa e a fada do dente por razões que achamos emocionalmente sadias, mas depois, antes de crescerem, nós os desiludimos sobre esses mitos. Por que nos desdizemos? Porque o seu bem-estar como adultos depende de eles conhecerem o mundo tal como é. Nós nos preocupamos, e com razão, com os adultos que ainda acreditam em Papai Noel.

Sobre as religiões doutrinárias, escreveu o filósofo David Hume que

“os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, as dúvidas que têm a respeito desses assuntos. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos a sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo”.

Essa descrença tem conseqüências morais profundas, como escreveu o revolucionário americano Tom Paine em The age of reason:

“A descrença não consiste em acreditar, nem em desacreditar; consiste em professar que se crê naquilo que não se crê. É impossível calcular o dano moral, se é que posso chamá-lo assim, que a mentira mental tem causado na sociedade. Quando o homem corrompeu e prostituiu de tal modo a castidade de sua mente, a ponto de empenhar a sua crença profissional em coisas que não acredita, ele está preparado para a execução de qualquer outro crime”.

A formulação de T.H. Huxley foi:

“O fundamento da moralidade é [...] renunciar a fingir que se acredita naquilo que não comporta evidências, e a repetir proposições ininteligíveis sobre coisas que estão além das possibilidades do conhecimento”.

E mais para o final do artigo temos o “kit” (do qual mostro o início);

Na ciência, podemos começar com resultados experimentais, dados, observações, medições, “fatos”. Inventamos, se possível, um rico conjunto de explicações plausíveis e sistematicamente confrontamos cada explicação com os fatos. Ao longo de seu treinamento, os cientistas são equipados com um kit de detecção de mentiras. Este é ativado sempre que novas idéias são apresentadas para consideração. Se a nova idéia sobrevive ao exame das ferramentas do kit, nós lhe concedemos aceitação calorosa, ainda que experimental. Se possuímos essa tendência, se não desejamos engolir mentiras mesmo quando são confortadoras, há precauções que podem ser tomadas; existe um método testado pelo consumidor, experimentado e verdadeiro.

O que existe no kit? Ferramentas para o pensamento cético.

O pensamento cético se resume no meio de construir e compreender um argumento racional e – o que é especialmente importante – de reconhecer um argumento falacioso ou fraudulento. A questão não é se gostamos da conclusão que emerge de uma cadeia de raciocínio, mas se a conclusão deriva da premissa ou do ponto de partida e se essa premissa é verdadeira.

Eis algumas das ferramentas:

● Sempre que possível, deve haver confirmação independente dos “fatos”.

● Devemos estimular um debate substantivo sobre as evidências, do qual participarão notórios partidários de todos os pontos de vista.

● Os argumentos de autoridade têm pouca importância – as “autoridades” cometeram erros no passado. Voltarão a cometê-los no futuro. Uma forma melhor de expressar essa idéia é talvez dizer que na ciência não existem autoridades; quando muito, há especialistas.(…)

Veja mais em A Arte Refinada de Detectar Mentiras.

 

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