Em outro post falo de Estamira, o personagem do filme de mesmo nome, sem ainda ter visto o filme e com base em uma entrevista. Ontem fui ver o filme com Iane, Leu e Natacha, na Caixa Cultural, no centro do Rio. O filme faz parte da mostra “Eu é um outro”.
Pegamos o filme ligeiramente começado. Imagens em preto e branco se mesclavam com trechos a cores. O lixão estava em toda parte. Montanhas e montanhas de refugos a vezes fustigadas por ventanias de tempestades a criar pequenos tornados de plástico e papel. O espetáculo era dantesco com relâmpagos ao fundo e mais parecia uma visão do inferno com sua almas penadas no meio dos urubus e das garças disputando os despojos da cidade. Homens-urubus-garças lépidos para obter primeiro o seu quinhão. Assim como o lixão Estamira declara estar em todo parte como se Deus fosse. Estamira se alegra com as vozes e sons da tempestade. Depois a enfrenta como se desafiasse forças imensas. E se ri dela. Estamira é mais forte! O mundo simbólico de Estamira é feito de lucidez embebida em loucura. Loucura que é mais perturbação como ela mesma diz. Revolta-se contra a “dopagem”, que parece fazê-la sofrer por deixá-la com dificuldades de controlar o seu corpo, e com a aparente distância com que é tratada pelos médicos.
A revolta de Estamira é imensa. Um filho crente a quer endemoniada e recebe merecidos xingamentos. A vida de Estamira e todo o seu passado não cabem numa simplificação religiosa que querem lhe impingir. Estamira, que já foi religiosa, não crê nos pastores e nem nos padres. Tem-nos todos por enganadores. Deus é invenção dos homens, acerta. Mesmo tendo reparos a Jesus identifica-se um pouco pela via do sofrimento e de se sentir traída. Gosta do trabalho mas acha que o sacrifício que torna a vida miserável é desnecessário. Estamira as vezes quer se tornar invisível, sua metáfora para a morte. Se seu sacrifício redimisse o mundo aceitaria imolar-se em fogo. Seu neto a desrespeita com uma lenga lenga mal compreendidas por ele mesmo sobre Estamira não ter respeito por Deus. Recebe também o troco através das fúria de Estamira que se contém apenas por que é seu neto. Estamira já vive há cerca 60 anos, como diz a seu neto, e já bebeu de muito sofrimento para ser afrontada assim. Estamira também fala muitas verdades em línguas que ninguém compreende como se quisesse proteger aos outros de se queimar e se consumir naquilo que só ela suporta. As vezes rimos com Estamira e suas tiradas e a licença para o riso vem dela não se deixar abater apesar de sua enorme depressão. Não rimos de Estamira. Não nos é permitido. Estamira, que foi abusada na meninice, prostituída na juventude, viveu com companheiros que não a valorizaram por duas vezes, viu sua mãe, também considerada louca, ser internada e sofrer muito até, que ela, Estamira, a retirou do manicômio e cuidou dela pessoalmente, que foi estuprada duas vezes na idade adulta, pede respeito.
Estamira aprendeu com seu estuprador, quando clamava “ai meu Deus” e ele repondia “Deus é o caralho”, que Deus não iria acudí-la. Que Deus não a acudiu. E que toda esta história de provação que é impingida a todos para tudo justificar é uma enganação. Como pode um deus, que tudo pode, segundo dizem, deixar suas criaturas a mercê de tantas agruras sem nenhuma esperança. Que expiação é essa não consegue Estamira entender. Conclui balsfemando que Deus é um estuprador porque foi ele, com sua omissão, que a estuprou. Conclui, contraditoriamente, que Deus é tão somente invenção dos homens. A convicção da inexistência de Deus é uma rejeição a uma existência de um ser de amor que, existindo, parece odiar as suas criaturas. A conclusão de que seja uma invenção dos homens se baseia então no fato de que esse deus parece ser bastante imperfeito como as realizações humanas.
“Eu não sou comum. (…) Eu sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim, sem a Estamira”
Descansando nada. Apesar de estar quebrado pela aventura de ontem de manhã fomos no Arpoador, eu, Carolina e Iasmin. O tempo estava lindo. Tomamos água de côco e voltamos. No Leblon jogavam capoeira no asfalto interditado para pedestres. Depois do almoço tentei assistir o filme Fantasia. Dormi em algumas partes mas acordei nas que mais gosto: “A dança das horas” e “Uma noite no Monte Calvo”. O “Quebra-nozes” também foi legal. Não sabia que Tchaikowski não gostava desta música.
Mais tarde vamos assistir “O ano em que meus pais sairam de férias”.
Passeamos de bicicleta, eu, Leu e Natacha, ontem e hoje. Foi a estréia da nova bicicleta. Ontem demos a volta na Lagoa. Lanchamos perto do restaurante do Bráz. Hoje fomo até a Urca e almoçamos no Círculo Militar. Andamos também até o final da Cláudio Coutinho. Na volta fomos testemunhas de uma tentativa de assalto na rua Francisco Otaviano, bem perto da entrada do Parque do Arpoador. Natacha tinha parado para comprar água. Um jovem negro sem camisa tentou tomar a pochete de um gringo que ia tomar um táxi junto com um grupo. A vítima se jogou no chão frustando o assaltante que correu pra dentro do Parque. Um skatista resolveu correr atrás dele mas o ladrão o peitou perguntando se o caso era com ele. O skatista achou melhor “botar o galho dentro” e o ladrão fugiu de bicicleta com o comparsa que estava dando cobertura.Assistimos a ‘O galante Mr. Deeds’.
Voltei ao Rio no dia 28 de janeiro indo direto para o trabalho (viajei de madrugada). Dia 30 chegou Natacha e Leu. Não confiei numa melhora do tempo para marcar uma velejada. Fiquei de bobeira neste Carnaval. Na sexta passou o bloco ‘ Azeitona sem caroço’. A brincadeira estava tão empolgante e ordeira que deu vontade de descer as escadas e aderir. No dia seguinte queríamos ir ver a Banda de Ipanema mas Natacha caiu na escada e machucou o joelho. Quando ela melhorou fomos para a Ataulfo Paiva com a Dias Ferreira e acompanhamos o bloco ‘Empurra que pega’, que homenageia Niemeyer.
Também assitimos aos filmes O Agente da Estação, A Cidade das Mulheres e Buena Vista Social Club.
O Agente da Estação
A Cidade das Mulheres
Buena Vista Social Club
No último dia Natacha e Leu foram ver a Banda de Ipanema. Fiquei em casa. Vimos também filmes que pegamos na Blockbuster: ‘O cheiro do ralo’, ‘O homem que desafiou o diabo’ e InfIancia roubada’. Veja as imagens respectivas:
Clique na foto acima para ampliar e ver Leon Goes na sua excelente caracterização de um corcunda sinistro.
Acontece no MAM até o dia 18 de novembro (domingo) próximo. Tem filmes também. Ótimo para os que gostam de comer bem e/ou cozinhar. Haverá sessões de aprendizado.
Neste fim de semana, no dia da criança, Iasmin ganhou vários presentes: uma boneca, uma casa de pano e uma cadeirinha para andar na frente da bicicleta.
Assitimos também, em DVD, ‘Os produtores’ e ‘Razão e Sensibilidade’.