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Peça “Para acabar com o julgamento de Deus”

Setembro 21, 2007 · Deixe um comentário

Eu e Natacha fomo ao teatro da Aliança Francesa, em Botafogo, (em 21/9/2007) assistir a peça sobre Artaud. A peça é baseada numa transmissão radiofônica censurada na época. As gravações, que foram usadas na peça foram preservadas apesar da ordem de destruição que foi dada. No final da peça houve um debate.

Meu “contato” com Artaud começou por uma biografia do mesmo há já alguns anos. As sua cartas ao seu psiquiatra e “carcereiro”, citadas na biografia (publicadas como Cartas de Rodez), é objeto de minha curiosidade desde lá. Não comprei o livro a respeito delas ainda. Pela biografia que li Artaud, de dentro de uma lucidez contraditória com seu status decretado de louco, não conseguiu reverter o dogma de sua loucura na crença de seu médico. A relação de poder entre o psiquiatra, representando a sociedade no seu horror ao elemento perturbador, e o seu ‘paciente’ não precisa aqui da voz emprestada de Foucault aos que só podem silenciar. A antinomia que Artaud representa é que ele próprio não silenciou e, portanto, a sua sanidade é absoluta quando escolhe a linguagem da loucura como metáfora dessa sanidade e lucidez extrema que revela, ou desvela, a insanidade do julgamento.

A oportunidade de “sentir” Artaud numa peça foi o que me atraiu para poder entender melhor o seu “teatro da crueldade”. Comecei a ler o “O teatro e seu duplo” para este fim, mas ainda não o terminei. E já faz algum tempo. O contato com uma peça que materializa esse teatro deve criar um incentivo para retomar a leitura.

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Rubem Alves

Setembro 21, 2007 · Deixe um comentário

Não resisti, olhando o site de Rubem Alves, de citar alguns textos ótimos (e é difícil escolher) do mesmo:

Vi uma ligação dos textos acima com o  POLÊMICA, POLÍTICA E PROBLEMATIZAÇÕES, do Foucault. Abaixo cito um trecho:

Perguntas e respostas fazem de um jogo – jogo agradável e ao mesmo tempo difícil – em que cada parte procura usar apenas os direitos que lhe são dados pelo outro e pela forma consentida do diálogo.

O polemico, pelo contrário, procede atrelado a privilégios que detém antecipadamente e que não aceita nunca de pôr em discussão. Possui, por princípios, os direitos que o autorizam à guerra e que fazem desta luta uma empresa justa; diante dele não está um companheiro na busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que errou, que é prejudicial e cuja existência constitui uma ameaça. Para ele, portanto, o jogo não consiste em reconhecer o outro como sujeito que tem direito à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer possível diálogo, e o seu objetivo final não será o de aproximar-se quanto possível de uma verdade difícil, mas o de fazer triunfar a justa causa de que se proclama, desde o inicio, o porta-voz. O polemico apoia-se em legitimidade da qual o seu adversário é, por definição, excluído.

Talvez um dia será necessário escrever a longa historia da polêmica como figura parasitária da discussão e o obstáculo à busca da verdade.

Foucault

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Deus , um delírio (God Delusion), de Richard Dawkins

Setembro 21, 2007 · Deixe um comentário

 

 

Terminei de ler o novo livro de Dawkins.

Há uma discussão sobre a tradução do título. A palavra delírio sugere uma mente delirante sonhando Deus. ‘Deus: uma desilusão’ talvez seja melhor por expressar bem o sentimento de desilusão de Dawkins com a religião e seu fundamento: Deus.

Dawkins usa a arma que sabe manejar bem: a ciência, em geral, e a biologia e a teoria da evolução de Darwin. E como maneja bem! O resultado é um deleitamento com os seus escritos, claros e diretos, de vulgarização da ciência e da teoria da evolução.

Dawkins é acusado de religiosidade com razão se o que se quer entender por religiosidade for o ‘religare’ citado por Rubem Alves. Encantar-se com a natureza, mesmo que com os olhos da razão, é ‘religare’. Mas evidentemente Dawkins não é religioso. A acusação é mais uma tática para confundir o seu libelo com o surgimento de somente mais uma nova seita. Seria mais um profeta de apenas mais uma nova religião a se combater com a verdade das religiões pré-existentes. Colocado assim, na mesma vala comum, o libelo de Dawkins, a sua ‘fúria sagrada’, perderia o impacto e a capacidade de fazer pensar. E é só isso que Dawkins pede que façamos. Pensar por nós mesmos. E concluir e seguir o que quiser, por quanto tempo quiser e só quando quiser. Simples assim.

Há um bom tempo Nietzsche relativizou a moral sem negar seu valor mas prescrevendo que uma nova moral surgirá para o novo além-homem, construída por ele e para ele, tão provisória enquanto necessária e enaltecedora da vida.

Espiritualidade

“Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.”
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho…
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres…
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?” (Walt Whitman)

 

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