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Deus, um delírio

Setembro 7, 2007 · 1 Comentário

Não li ainda esse último livro do Dawkins. Comecei a ler Dawkins pelo ‘A escalada do monte improvável’. Lá encontrei uma brilhante exposição sobre a evolução que me esclareceu bastante. O último capítulo, ‘O jardim murado’, é um exercício esplêndido do poder explicativo da teoria. Comprei depois o ‘Gene Egoísta’ e o ‘Capelão do Diabo’. Não consegui obter ainda o ‘Relojoeiro cego’.

Escrevi um post relacionado a um texto de Dawkins intitulado ‘O vírus da mente’. Prefiro o argumento da filosofia de Nietzsche para a questão do ateísmo mas aprecio a clareza científica de Dawkins e sua honestidade intelectual, embora, às vezes, pareça mimetizar o estilo aguerrido do lado oposto. Acho que é uma espécie de atitude indignada com a aceitação tácita do obscurantismo imposto por uma propaganda intensa e sem trégua e que não admite nenhum tipo de escapatória. Ela busca impregnar as mentes quase desde o berço.

Eu já tinha visto ‘Deus, um delírio’ em uma livraria, de relance, mas não cheguei nem a folheá-lo. Na verdade nem pensei muito em comprá-lo num prazo tão curto como estou pensando agora. Fui influenciado principalmente ao ler excelente artigo de Homero Ottoni Jr. ‘Enganos de João Fidélis’ no blog ‘O Bruxo de Santos’. Fiquei imediatamente interessado em conhecer o livro. Ottoni foi brilhante em sua resposta ao Sr. Fidélis. Fidélis, provavelmente não leu o livro de Dawkins. Comprá-lo e tê-lo deve parecer indigno ao Sr. Fidélis. No seu círculo ninguém deve tê-lo para emprestar. Além disso, sendo o livro de publicação recente, o acesso disponível ao mesmo deve ser pela aquisição. No estilo ‘não li e não gostei’, frase que gosto de dizer por brincadeira para mostrar que tenho opinião formada sobre algum autor, ou até mesmo preconceito, por que não?, e que aplico principalmente aos comentários sobre os escritos de Paulo Coelho. É claro que do pouco do que se lê de alguns autores dá para ter idéia sobre se há interesse em prosseguir. Mas é claro que se há interesse em polemizar (e aqui gosto da postura de Foucault sobre o que representa esta prática) com o autor ou sobre seus escritos é preciso lê-lo!

Veja um trecho da entrevista com Foucault:

No jogo sério das perguntas e das respostas, no trabalho de esclarecimento recíproco, os direitos de cada um são, de alguma forma, imanentes à discussão. Dependem apenas da situação do diálogo. Quem pergunta limita-se a exercer um direito seu: o de não estar convencido, de colher uma contradição, ter necessidade de informação ulterior, fazer valer postulados diversos, sublinhar um defeito na argumentação. Quanto a quem responde, nem sequer ele tem um direito que excede à própria discussão; está ligado, pela lógica do seu discurso ao que disse antes e, pela aceitação do diálogo, à pergunta do outro. Perguntas e respostas fazem de um jogo - jogo agradável e ao mesmo tempo difícil - em que cada parte procura usar apenas os direitos que lhe são dados pelo outro e pela forma consentida do diálogo.

O polemico, pelo contrário, procede atrelado a privilégios que detém antecipadamente e que não aceita nunca de pôr em discussão. Possui, por princípios, os direitos que o autorizam à guerra e que fazem desta luta uma empresa justa; diante dele não está um companheiro na busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que errou, que é prejudicial e cuja existência constitui uma ameaça. Para ele, portanto, o jogo não consiste em reconhecer o outro como sujeito que tem direito à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer possível diálogo, e o seu objetivo final não será o de aproximar-se quanto possível de uma verdade difícil, mas o de fazer triunfar a justa causa de que se proclama, desde o inicio, o porta-voz. O polemico apoia-se em legitimidade da qual o seu adversário é, por definição, excluído.

Talvez um dia será necessário escrever a longa historia da polêmica como figura parasitária da discussão e o obstáculo à busca da verdade. Muito esquematicamente, sou da opinião de que, hoje, se poderia reconhecer a presença de três modelos: o modelo religioso, o modelo judiciário e o modelo político. Conforme na heresiologia, a polêmica tem em vista determinar o ponto intocável do dogma, o princípio fundamental e necessário que o adversário menosprezou, ignorou ou transgrediu; e, nesta negligencia, ela denuncia a culpa moral; na raiz do erro, descobre a paixão, o desejo, o interesse, uma série de fraquezas e de predileções inconfessáveis que o tornam culpado. Conforme ocorre na prática judiciária, a polemica não oferece a possibilidade de uma discussão paritária; ela instrui um processo; não tem a ver com um interlocutor, mas com uma pessoa suspeita; reúne as provas da sua culpa e, ao designar a infração que cometeu, pronuncia e impõe a condenação. De qualquer modo, não se está no campo de uma investigação conduzida conjuntamente; o polemico diz a verdade sob forma de juízo e em base à autoridade que sozinho conferiu a si mesmo. Mas atualmente é o modelo político que é mais poderoso. A polemica define alianças, recruta, portador de interesses opostos, contra quem urge lutar até que, batido, só lhe resta submeter-se ou desaparecer.

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Darwiniana

Setembro 7, 2007 · 1 Comentário

O leão mordeu o antílope em todas as partes imagináveis. Mordeu os chifres e quebrou os dentes. Mordeu as patas e foi escoiceado. Mordeu as ancas e foi alijado com violência. Até que, depois de milhões de anos que se passaram num desvairio de dentadas, ele mordeu a boca do antílope, num sufocante beijo da morte. E todos viram que era bom…

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