Um colega de trabalho me chamou atenção para um ciclo de palestras muito interessante no Maison de France, no Rio. Infelizmente algumas palestras já se passaram. Vai acontecer também em algumas outras capitais. Vou tentar participar das palestras que restaram.
Os rumos atuais para o papel do que é humano no mundo está extremamente nebuloso, como atesta o texto de Adauto Novaes, da curadoria do evento, do qual cito algumas partes:
Mutações são passagens de um estado de coisas a outro - passagens muitas vezes indefinidas do ponto de vista conceitual, que nos deixam à deriva, quando as trilhas são pouco visíveis ou pouco confiáveis, em particular se elas foram abertas, como acontece hoje, não propriamente pelo trabalho do pensamento, mas pela técnica, o que marca, pelo menos até agora, certa resignação do saber diante do poder da ciência. Isso não quer dizer que, antes, tínhamos muita certeza de onde estávamos e para onde íamos. É preciso construir, pois, novo itinerário uma vez que já não temos nenhuma garantia de retorno aos velhos roteiros e uma vez que o positivismo da técnica só nos pode indicar caminhos falsos.
E ainda, em outra parte, ele cita Jean Baudrillard falando de uma revolução antropológica sucedendo as revoluções históricas:
revolução que corresponde “a uma perfeição automática do aparelho técnico e uma desqualificação definitiva do homem, da qual nem ele mesmo tem consciência. No estagio hegemônico da técnica, que é o da potência mundial, o homem perde não apenas sua liberdade, mas a imaginação de si mesmo.”
E, inscrevendo Karl Jasper em seu texto, que, em 1958, diz, sobre a medicina e a técnica cada vez mais sofisticada, o seguinte:
“mais o saber e o poder científicos aumentam, mais os aparelhos que ajudam no diagnóstico e no tratamento são eficientes, mais se torna difícil encontra um bom médico, ou mesmo um simples médico”. Jasper conclui com um diagnóstico “sinistro”, como ele mesmo diz: “Nesta situação, parece objetivo perguntar-se se caminhamos em direção a uma existência que não é mais verdadeiramente humana, se nos dirigimos assim ao fim da humanidade. Mas não saberíamos responder a esta questão objetivamente recorrendo ao nosso saber. Para o médico, como para qualquer homem, a questão é, ao contrario, saber que decisão ele toma, por que ele quer viver e agir. Esta perspectiva sinistra pode ocultar a abertura de novas possibilidades de nosso ser.”
Cada vez mais os pensadores têm que se debruçar, não mais sobre o tema da utopia e sua utilidade para a vida, mas sobre a distopia e seu aspecto sinistro. A figura de Da Vinci, onde o homem é a medida do mundo, não representa mais o ser moderno, cada vez mais periférico e alijado nos processos em vórtice avassalador e de moto contínuo aparentemente impossíveis de serem estancados ou redirecionados.
Programação:
RIO DE JANEIRO - MAISON DE FRANCE - terças e quartas, às 18h30
03 set A fabricação do homem e da natureza, por Jean-Pierre Dupuy
04 set Os três tempos da mutação, por Luiz Felipe Alencastro
05 set O novo inconsciente, por Lionel Naccache
10 set Por um saber sem fronteiras, por Sérgio Paulo Rouanet
11 set As mutações do poder e os limites do humano, por Newton Bignotto
12 set Poesia sem palavras?, por Michel Déguy (17 h)
12 set Novas afinidades eletivas, por Eugène Enriquez (18:30 h)
17 set Metamorfoses do tempo, por Olgária Matos
18 set Depressão e imagem do novo mundo, por Maria Rita Kehl
19 set Sobre o caos e novos paradigmas, por Luiz Alberto Oliveira
24 set Fim da guerra clássica - novos estados de violência, por Frédéric Gros
25 set O que mantém o homem vivo: devaneios
sobre algumas transfigurações do humano, por Renato Lessa
26 set Máquinas utópicas e distópicas, por João Camillo Penna
02 out Metamorfoses da visibilidade, por Paulo Sérgio Duarte
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