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Nulo, branco ou o que?

Setembro 12, 2006 · Nenhum Comentário

A campanha pelo voto nulo tem suscitado a campanha pelo voto consciente pelas autoridades e meios de comunicação num engajamento que pode até levantar uma suspeição: se o voto nulo não anula a eleição (a nulidade e o voto nulo só têm em comum o radical conforme atesta a lei eleitoral) de que têm medo as autoridades e afins? Têm medo da tese anarquista do esvaziamento moral do ato de votar e talvez mais das suas consequências no imaginário do eleitor. Se a democracia se restringe a votar e não permite (a não ser de forma extremamente dificultosa) grandes controles posteriores o eleitor a cada dia se descobre como “vaca de presépio” que não muge e nem dá leite. O eleitor talvez comece a reivindicar mais poder no processo todo do que apenas dar carta-branca periodicamente. Os anarquistas sonham com mais. Que uma destruição criativa surja daí. Alguém colocou de forma pragmática e cristalina seu dilema: não tinha nenhum candidato que merecesse sua confiança ou que tivesse minimamente propostas factíveis ou mesmo interessantes e, por isso, não queria votar em nenhum deles. Votar no menos pior, nestes tempos de nivelamento dos políticos a uma canalha, era também uma tarefa dificílima, as diferenças parecendo ser infinitesimais. Uma minoria de “andorinhas” que “não podem fazer o verão” também não representa uma solução contra uma revoada de abutres. E o que dizer do eleitor que não acredita mais no sistema? Os políticos é claro que acreditam no sistema pois se não iriam fazer outra coisa. Acreditam que podem mudar alguma coisa no interesse coletivo, de grupos ou até mesmo no interesse individual como está se tornando mais comum. O parlamento, mais exposto que o executivo e o judiciário dado o seu caráter verboso, é que aparenta mais a imundície reinante e talvez seja órgão que mais se mostre talvez dispensável: uma contradição já que a democracia é confundida bastante com um processo contencioso onde todos são iguais perante o direito de reclamar e argumentar. Na execução a história é outra e o totalitarismo burocrático muitas vezes se impôe. Lênin, citado um pouco fora do contexto, parece estar congelando para sempre um juízo contundente sobre o parlamento e suas relações com outros poderes e com a “plebe”:

(…) a verdadeira tarefa “governamental” é feita por detrás dos bastidores, e são os ministérios, as secretárias, os estados-maiores que a fazem. Nos parlamentos, só se faz tagarelar, com o único intuito de enganar a “plebe”. Tanto isso é verdade que, mesmo na república burguesa democrática, todos esses pecados do parlamentarismo já se fazem sentir, antes mesmo que a república tenha conseguido criar um verdadeiro parlamento. (…)

Lênin, em O Estado e a Revolução,

3. Supressão do Parlamento

Veja também Eleições e democracia.

 

Categorias: Citação · Política

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